Responsável por criar obras intrigantes e audaciosas como “Leftovers” e “Watchmen”, Damon Lindelof é, sem dúvida, um dos roteiristas mais interessantes da atualidade. Por isso, é curioso notar sua assinatura em um projeto tão raso quanto “The Hunt”. A narrativa, também roteirizada por Nick Cuse, é uma sátira de filmes de ação em tempos de “lacração online”, polarização política e disseminação de fake news. O resultado é um projeto cheio de camadas, mas que, em momento algum, pode ser levado à sério.

Dirigido por Craig Zobel, “The Hunt” traz como base o velho jogo entre caçador e caça. O primeiro grupo é composto pela elite liberal, como eles mesmos se nomeiam, e a caça, são os deploráveis. O filme propositalmente seleciona o pior dos estereótipos de cada lado político; estas, por sua vez, são marcações bem definidas nas personalidades encontradas nos Estados Unidos, onde a obra causou polêmica e teve o seu lançamento adiado, e que não deixa de refletir os arquétipos brasileiros. 

O conceito é interessante e, por alguns instantes (especialmente diante das participações de Emma Roberts e Justin Hartley), passa a sensação de que tudo será bem orquestrado e todos os elementos reunidos conseguirão tornar a obra uma sátira irreverente, memorável e registrar comentários sagazes apesar da forte violência gráfica.

Aos poucos, no entanto, tornar-se perceptível a repetição da condução dos personagens, fazendo com que a narrativa perca força e pare de se desenvolver. Para piorar, quando há a chance para enveredar a discussões mais amplas, o caminho escolhido reduz tudo a tiro, porrada e bomba.

Literalmente!

Cultura do Cancelamento

Em tempo de lacração e linchamentos virtuais, os arquétipos apresentados nos dois lados de “The Hunt” expõem a ambivalência das discussões online e a banalidade que cerca esse tipo de engajamento. Enquanto o time caçador se sente superior por estar “exterminando” exemplares de pessoas ruins – em uma cena com ecos de “Bacurau” -, aqueles que estavam sendo caçados não eram tão inocentes quanto a sua posição de caça pudesse indicar.

Os lados personificados por Bola de Neve (Betty Gilpin) e Athena (Hilary Swank, duas vezes vencedora do Oscar por “Meninos Não Choram” e “Menina de Ouro”) sugerem o quão superficiais e problemáticos podem ser os posicionamentos online e a toxicidade das mídias sociais, visto o impacto que isso pode ter na vida das pessoas envolvidas. A questão é que mesmo essa camada não consegue aprofundar os conceitos levantados em “The Hunt”.

Se por um lado, a violência gratuita encerra abruptamente discussões que poderiam aprofundar-se, as escolhas repetitivas fazem com que o filme não se permita ser levado a sério.  Afinal, todos os lados são atacados, não há heróis ou antagonistas e se alguma conclusão pode ser tirada disso é: cuidado em como e com quem você cancela na internet.

“The Hunt” poderia pertencer ao quadro das grandes produções de Lindelof, mas a combinação de gore, tensão superficial e história direta se mostrou rasa e não deu tão certo.

‘Top Gun: Maverick’: o maior espetáculo cinematográfico em um bom tempo

Precisamos de poucos segundos para constatar: a aura dourada de San Diego, banhada por um perpétuo poente, está de volta. “Top Gun: Maverick” se esforça para manter a mesma identidade estabelecida por Tony Scott no original de 1986 – tanto que a sequência de créditos...

‘Tantas Almas’: olhar sensível sobre questões amazônicas

Captar as sensibilidades que rondam a Amazônia e a vivência de seus moradores é um desafio que nem todos os cineastas estão dispostos a experimentar. A região, nesse sentido todo território sul-americano recoberto pelas suas florestas e rios, desperta curiosidade e o...

‘O Homem do Norte’: Eggers investe na ação aliada aos maneirismos

Considerando o que tem em comum entre os planos definidores de suas obras, podemos encontrar a frontalidade como um dos artifícios principais que Robert Eggers usa para extrair a performance de seus atores com êxito.  Ao mesmo passo que esses momentos tornam-se frames...

‘O Peso do Talento’: comédia não faz jus ao talento de Nicolas Cage

Escute esta premissa: Nicolas Cage, ator atribulado de meia-idade, teme que sua estrela esteja se apagando; o telefone já não toca mais, as propostas se tornaram escassas e o outrora astro procura uma última chance de voltar aos holofotes com tudo. Vida real, você...

‘O Soldado que não Existiu’: fake news para vencer a guerra

Em 1995, Colin Firth interpretou o senhor Darcy na série da BBC que adaptou “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. Dez anos depois, Matthew Macfadyen eternizou o personagem no filme de Joe Wright, tornando-se o crush de muitas jovens e adolescentes. John Madden...

‘@ArthurRambo: Ódio nas Redes’: drama sintetiza a cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento permeia a internet às claras. Para o público com acesso  frequente, é impossível nunca ter ouvido falar sobre o termo. Vivemos o auge da exposição virtual e como opera a massificação para que os tais alvos percam - merecidamente - ou não -...

‘Águas Selvagens’: suspense sofrível em quase todos aspectos

Certos filmes envolvem o espectador com tramas bem desenvolvidas, deixando-nos mais e mais ansiosos a cada virada da história; outros, apresentam personagens tão cativantes e genuínos que é impossível que não nos afeiçoemos por eles. Mas existe também uma categoria...

‘Ambulância – Um Dia de Crime’: suco do cinema de ação dos anos 2000

Vou começar com uma analogia, se me permitem. Hoje em dia, o ritmo e consumo de coisas estão rápidas e frenéticas. Com o Tik Tok e plataformas similares, esse consumo está ainda mais dinâmico (e isso não é um elogio) e a demanda atende às exigências do mercado. A...

‘Eduardo e Mônica’: para deixar Renato Russo orgulhoso

Se há algo que é difícil de ser respeitado no mundo cinematográfico atual é a memória e o legado do artista. Por isso, ver o legado de Renato Russo e da Legião Urbana sendo absorvido pelo cinema com um grau de respeito e seriedade acaba por fazer a situação inusitada,...

‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’: barreiras da Marvel travam Sam Raimi

“Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” apresenta uma das suas passagens mais interessantes quando o protagonista (Benedict Cumberbatch) e America Chavez (Xochitl Gomez) cruzam uma série de mundos em poucos segundos. De universos mais sombrios aos realistas até...