Atlantique, primeiro longa-metragem de ficção da diretora Mati Diop e produzido pela Netflix, é acima de tudo um filme que surpreende. Quando ele se inicia, achamos que a história seguirá por uma direção, mas não demora muito uma tangente se apresenta, e depois outra, e então fica claro que o filme é uma mistura de vários elementos. Ele é alternadamente, um drama social sobre a condição feminina, um melodrama romântico, uma história sobrenatural com toques de terror e uma trama de maturação sobre o amadurecimento de sua protagonista. O fato de conseguir ser relativamente coeso, ao seu final, acaba sendo a maior proeza da direção de Diop.

É o tipo de filme do qual quanto menos se souber antes de entrar na sua Netflix, melhor. Em termos gerais, é a história de Ada (vivida com sensibilidade e com expressividade por Mama Sané). Ela vive em Dakar, no Senegal, numa comunidade à beira-mar, e está prestes a se casar numa cerimônia arranjada com um sujeito que mal conhece. Mas ela ama o jovem Souleiman (Ibrahima Traoré), um operário que está trabalhando na construção de uma enorme torre na cidade. Algo ocorre entre Ada e Souleiman e esse fato desencadeia uma história intrigante e com tons metafóricos e políticos.

Desde o início do filme, Diop não adota um enfoque puramente documental em Atlantique, fugindo do que normalmente se esperaria numa produção como essa. Apesar de mostrar a comunidade de maneira naturalista – percebe-se que não há muitos atores profissionais em cena – e da sua câmera ser invisível e nos mostrar aquele mundo como se fosse uma mosca na parede, há também elementos e imagens que demonstram o interesse maior da diretora por um tom lírico. Planos recorrentes do oceano, sempre por perto; ou o uso da trilha sonora nos colocam num estado emocional, fazendo do filme algo além do mero documental.

ESCOLHAS DIVISIVAS

Isso dá permissão a Diop fazer a transição para o elemento sobrenatural na segunda metade, a qual provavelmente deve dividir um pouco o público. Mesmo assim, essa transição também é suavizada pelas observações do roteiro (de Diop e Olivier Demangel) sobre a condição feminina – Em dado momento, Ada precisa ser examinada por um médico para comprovar sua virgindade, o que acaba sendo mais assustador e incômodo do que o lado sobrenatural da história. A libertação da personagem e a eterna luta entre modernidade e tradição, também são temas abordados dentro daquele contexto de forma orgânica e inteligente.

Ainda assim, há alguns problemas. Apesar do roteiro e da direção fazerem o que podem para suavizar a entrada dos elementos sobrenaturais na história, eles não são inteiramente bem sucedidos nesse quesito. A certa altura, Atlantique se torna simplesmente esquisito demais, o que acaba até diminuindo um pouco a força da catarse no final. Além disso, há algumas perguntas razoavelmente importantes que o roteiro parece não ter interesse em responder. Por exemplo, afinal por que a família do pretendente rico de Ada aceitou na boa esse casamento com uma moça pobre? E o que acontece com o detetive, no final?

Esses problemas demonstram que os temas propostos no roteiro nem sempre se coadunam num todo harmônico. Ainda assim, é um filme intrigante, no qual Mati Diop se mostra uma revelação no tocante à direção de atores e na criação de uma atmosfera especial. Atlantique não é perfeito, nem deverá ser abraçado por todo mundo, mas é uma experiência com tons de fascínio e mistério bem fortes. E hoje em dia, a capacidade genuína de surpreender o espectador não é, de jeito nenhum, algo para se desprezar.

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