Surgida em plena era da explosão do #MeToo, “Big Little Lies” teve uma primeira temporada superestimada. Exceto pelo brilhante final com o surgimento da sororidade entre as protagonistas, a então minissérie contava com altos (Nicole Kidman, Laura Dern) e baixos (Reese Witherspoon, Shailene Woodley) dentro da trama. Mesmo que ainda irregular, o segundo ano consegue harmonizar melhor todas as histórias ao trazer retratos mais complexos para as protagonistas. 

A âncora da segunda temporada de “Big Little Lies” é a superação dos traumas passados e recentes, especialmente, a morte de Perry (Alexander Skarsgard). Igual ocorrera no primeiro ano, Celeste Wright (Nicole Kidman) segue sendo o ponto alto da história.  

Aqui, a personagem encarna um drama vivido por diversas vítimas de violência doméstica mundo afora: sentir-se culpada pelos atos agressivos do marido a que era submetida. Por diversos momentos, a vemos apontar que se tivesse agido de maneira diferente, as agressões não teriam ocorrido. Isso abre uma série de angústias desde a sexualidade da personagem até o próprio passado dela com Perry 

Kidman espelha esta turbulência interna com brilhantismo como, por exemplo, na importante cena em que Celeste coloca a melhor amiga, Madeline (Reese Witherspoon), no lugar dela ao ser espancada durante uma sessão de terapia. O grito desesperado ao voltar para si realça a dimensão do horror. 

A chegada de Mary Louise (Meryl Streep), mãe de Perry, amplifica a tensão de Celeste. Porém, se os primeiros momentos deste embate são interessantes ao ficar concentrado em um jogo duplo, sem ficar claro a intenção da avó, a metade final vai para o tradicional conflito de tribunal – aliás, não há como não associar com “Kramer Vs Kramer” em que Streep faz praticamente a mesma persona. Apesar de render sequências interessantes, o roteiro força bastante a amizade com o surgimento de um vídeo e uma recordação do nada para o desfecho. 

DERN BRILHA E REESE VOLTA A FICAR POR BAIXO  

Falando em ponto alto, o que é Laura Dern, senhoras e senhores?  

Com um estilo muito mais exagerado que as colegas, a atriz rouba a cena como Renata Klein. Interessante notar como o roteiro de David E. Kelly Liane Moriarty até busca com que ela seja o alívio cômico de “Big Little Lies” como ocorre na briga constante com o detector de metais ou na explosão final com o marido, porém, o talento de Dern permite também a existência do drama de alguém perder tudo após tanta luta, o que gera a empatia imediata. 

Comove também todo o desenrolar sensível de Jane (Shailene Woodley). Pode até ser cansativo aquele romance quase juvenil com Corey (Douglas Smith) em alguns momentos, porém, ela cresce quando foca nos temores internos da personagem, auxiliada pela própria concepção visual com roupas de mangas longas, como se tivesse vergonha do próprio corpo e servisse de uma espécie de camuflagem para evitar nova violência. 

Nesta segunda temporada, “Big Little Lies” ainda abre maior espaço para Bonnie. Afetada psicologicamente após o empurrão fatal dado em Perry, a personagem deixa de ser aquela garota cheia de vida dos primeiros episódios para mergulhar em um desespero silencioso, muito bem defendida por Zoe Kravitz.  

Porém, igual ocorre com Celeste, David E. Kelly e Liane Moriarty parecem não acreditar que somente este duelo interno seja suficiente para o drama. Daí, surge a mãe dela, um passado turbulento e confuso da forma como foi transposto para a tela, além de um toque sobrenatural desnecessário. Só não é ruim como um todo devido a um sensível momento em que, finalmente, Bonnie consegue colocar para fora (quase) todas as angústias. 

Diante de tantos bons núcleos, é uma pena que, mais uma vez, Madeline acabe ficando de lado. Espécie de protagonista por ser o núcleo de ligação entre todas as ‘cinco de Monterrey’, a personagem tendo a história mais desinteressante. A proposta da temporada é até interessante ao colocar Ned (Adam Scott) em uma posição quase sempre exclusiva da mulher na ficção: a vítima da traição.  

Mas, aguentar o personagem de Adam Scott com seu pseudo-humor sarcástico (o que são as tretas dele com Ned?) e a cara de emburrado é dureza, servindo apenas para empurrar Reese Witherspoon ladeira abaixo. A salvação poderia ter sido a reflexão de Madeline sobre o fato de não ter feito faculdade e se sentir sem destino, mas, o roteiro não leva isso adiante. 

Independente do final em aberto e de pequenas pontas soltas deixarem espaços abertos para uma possível continuação, “Big Little Lies” sai do ar com uma impressão mais satisfatória do que a causada no primeiro ano. Apesar do mistério sobre a morte de Perry perseguir as protagonistas e da mentira ser a amizade, como afirma Celeste no último episódio, o que fica mesmo são os dramas internos de cada uma delas e a forma como lutaram para superá-los. 

Juntas e unidas, as cinco de Monterrey apontaram novos caminhos para a indústria, tanto em lucro quanto de qualidade, e também permitiram a mulheres espalhadas mundo afora de que é possível vencer traumas, seguir adiante e se impor dia após a dia. Uma mensagem necessária cada dia mais. 

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