Os 54 dias das prisões de Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre dezembro de 1968 a fevereiro de 1969, não apenas simbolizaram o mais claro sinal do endurecimento contra a classe artística e intelectual promovido pela ditadura militar no Brasil após o Ato Institucional de número 5, o famigerado AI-5. Ali, conforme mostra os relatos de Caetano no belo documentário “Narciso em Férias”, apresenta-se, sem disfarces ou meias palavras, todo o autoritarismo e reacionarismo com pitadas quase surreais de tacanhice do Estado brasileiro e seus agentes mais retrógrados.  

“Narciso em Férias” não aposta em recursos gráficos, imagens de arquivos ou qualquer trucagem de montagem para dar dinamismo à narrativa. Durante todo os 83 minutos, Caetano Veloso está no centro da tela, trazendo os seus relatos e lembranças, enquanto um paredão de concreto cinza está mais ao fundo, criando um cenário de uma imensidão solitária, porém, reflexiva. De primeira, pode-se lamentar que os diretores Ricardo Calil e Rodrigo Terra não tenham optado por trabalhar com um amplo acervo, como fizeram no excelente de “Uma Noite em 67”, um dos mais deliciosos documentários sobre a música brasileira, por outro lado, a escolha torna-se compreensível quando você possui um gigante em sua frente.  

Dos mais hábeis arquitetos da língua portuguesa, Caetano descreve ricamente cada detalhe da sua passagem por quartéis, celas, camburões, além dos encontros, percepções, sentimentos daqueles 54 dias. A forma como diz sobre cada pequeno elemento da solitária onde ficou preso ou do soldado cheio de lágrimas ao vê-lo e a sensação de caminhar para a morte são imagéticos suficientes para não necessitar de qualquer recurso – não é à toa que certa vez Caetano chegou a falar que acreditava ter mais dom para o cinema do que para a música.  

Essa memória por si só já é invejável, afinal, já se passaram mais de 50 anos dos fatos e o cantor/compositor não ser mais um menino, porém, nos é apresentada como mais do que apenas uma reconstituição: Caetano Veloso nos coloca dentro de sua angústia de não saber sobre se um dia aquilo teria fim, da possível perda da identidade, de não se reconhecer mais em decorrência dos traumas, do corpo ressequido de emoção e desejo. As significações e ressignificações de músicas, toques, percepções ganham um caráter simbólico enorme quando não resta absolutamente nada a não ser exatamente isso que o liga a algum tipo de humanidade e sentimento.  

O MEDO DO ‘DESVIRILIZANTE’ 

A face autoritária do Estado brasileiro, abordada desde Eduardo Coutinho na obra-prima “Cabra Marcado Para Morrer” até o recente indicado ao Oscar, “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, ganha uma face absurda e intimista, às beiras de um realismo mágico latino à la Gabriel Garcia Márquez em “Narciso em Férias”. Da prisão à soltura, Caetano Veloso experiencia o retrato de um país truculento e ignorante, características tão arraigadas a ponto de parte significativa da população se orgulhar disso. 

Utilizado hoje em dia contra pretos e moradores das regiões periféricas das grandes cidades brasileiras, o aparato repressor do Estado foi sentido por Caetano e Gil ao serem transferidos de São Paulo para o Rio de Janeiro dentro de um camburão escuro em uma longa viagem pela Via Dutra e, chegando na capital fluminense, jogados em uma solitária por uma semana. O motivo? Até aquele momento e por mais 40 dias, nem eles sabiam. Torturas, descaso com os familiares através da falta de informações mínimas, autoritarismo sobram nos relatos emocionados e emocionantes do cantor/compositor. Um preço desumano em busca da imposição a qualquer custo do lema de nossa bandeira, ‘ordem e progresso’. 

O cenário fica ainda mais tenebroso com o componente da ignorância. Aqui, porém, reside o momento mais surpreendente de “Narciso em Férias”: apesar dos horrores da situação, Caetano Veloso consegue trazer leveza ao documentário ao comentar alguns absurdos com sarcasmo delicioso. No momento mais significativo historicamente do filme, a leitura do depoimento do cantor/compositor prestado aos militares, documento resgatado durante a sabotada Comissão da Verdade, trechos como a acusação de criar obras ‘desvirilizantes’ e perguntas sem completo nexo são ditas aos risos, tamanho o nonsense montypythiano do negócio. Até mesmo o processo de soltura com uma confusão danada entre a Polícia Federal e a Aeronáutica acaba sendo impagável pelo completo desencontro entre duas instituições que deveriam prezar fundamentalmente pelo setor de comunicação e informação.  

Ainda que não seja brilhante e soe chapa branca tanto pela produção executiva de Paula Lavigne quanto pela ausência de perguntas pertinentes dos diretores a Caetano Veloso em determinados momentos – a falta de um questionamento mais incisivo sobre a estratégia adotada no depoimento é o exemplo mais claro disso, principalmente, pelo próprio Caetano acabar fazendo o contraponto por conta própria – “Narciso em Férias” vai muito além dos clichês de ser um ‘filme atual’ ou um ‘filme necessário’ por conta do atual governo Bolsonaro, mas, terá sim estas alcunhas permanentemente por conta da base formadora deste país, uma base autoritária e violenta. 

Desta forma, infelizmente, nada mais natural do que a arma ser a resposta contra a poesia.

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