Dos 23 jogadores convocados pela seleção da França para a Copa do Mundo de 2018, 19 poderiam atuar por outras seleções que não a francesa. Apenas quatro não eram nascidos em outro país, ou não tinham os pais e/ou familiares de outro lugar – majoritariamente de algum país africano. Bastava ver o time em campo para notar a variedade dos tipos físicos, dos rostos, e até mesmo na forma de jogar. Uma equipe diversificada, que conquistou o título mundial de forma invicta. 

Como equipe de futebol, a França aprendeu a valorizar as qualidades que os estrangeiros são capazes de agregar ao seu jogo. Isso não se repete no aspecto social, entretanto. Estrangeiros, de modo geral, são colocados em situações difíceis economicamente, desamparados pelo Estado e não abraçados pela mão invisível do mercado, com grandes dificuldades de estabelecer moradia, renda fixa e com suas crianças sem ofertas de atividades culturais. 

Este preâmbulo é importante porque os primeiros minutos de “Os Miseráveis” mostram o país celebrando a conquista deste título. Logo com cinco minutos de filme temos signos fortíssimos, que geram impacto: um garoto de ascendência árabe enrolado com a bandeira da França passando pela Torre Eiffel, Arco do Triunfo, celebrando junto de milhares de pessoas nas ruas a conquista de algo que, pelo menos naquele momento, simboliza a união de todo país.

Pegando como gancho a obra homônima de Victor Hugo, o diretor Ladj Ly realizou um filme em que fala do lugar de onde veio e dos conflitos que presenciou na periferia de Paris. As duas obras falam sobre o cotidiano de pessoas pobres, oprimidas por forças do Estado de um lado e revolucionárias de outro, e que decidem agir para defender os seus interesses.

PONTO DE VISTA DISCUTÍVEL

 

Acompanhamos a história pelo ponto de vista de três policiais da divisão de narcóticos, Chris (Alexis Manenti), Gwada (Djebril Zonga) e o novato Stephane (Damien Bonnard). Vemos um dia de sua rotina em bairros da periferia de Paris, que apresenta um verdadeiro mosaico de personagens que compõem o lugar: Issa (Issa Perica), o garoto que acompanhamos no início do filme e que logo na sequência obriga o pai a buscá-lo na delegacia por ter roubado galinhas; o “Prefeito” (Steve Tientcheu), uma espécie de miliciano que toma conta do comércio local em troca de proteção; além de muçulmanos, ciganos e crianças.

O ponto de vista preponderante é o de Stephane, que serve como ferramenta para nos aproximar do filme, um artifício bastante recorrente no cinema. O novato representa o público naquele universo, ou seja, alguém que é jogado no meio de um furacão e aos poucos vai compreendendo quem são os atores dos conflitos, o que querem, e o que está por trás de tantos conflitos.

Os Miseráveis foi bastante comparado a O Ódio (1995), pela maneira como apresenta a periferia de Paris como um caldeirão cultural furioso, de relações complexas entre os subgrupos que compõem um local com muitas desavenças, mas que têm em comum o desprezo pela polícia, semelhante ao filme de Matthieu Kassovitz. Mas ao contrário do longa anterior, Os Miseráveis traz a sua trama pelo ponto de vista dos policiais, uma decisão questionável de Ly. Até por conta disso, em vez de La Haine, o filme que mais me vem a mente para aproximar deste trabalho é Tropa de Elite (2007).

O contexto é bem apresentado e compreendemos que os embates entre os núcleos ali presentes são complexos. Não é uma ação isolada que vai resolver os conflitos, e todos os pontos de vista possuem elementos para serem encarados como vítimas ou vilões. Mas quando vemos tudo pelos olhos dos policiais, fica difícil compreender aonde o filme quer chegar, ou se pretende ir além do simples ato de apresentar uma situação de violência de maneira intensa e que o espectador tire a conclusão que quiser.

Os Miseráveis dividiu o prêmio do júri do Festival de Cannes de 2019 com Bacurau (2019), e ambos foram comparados devido a maneira como mostraram um grupo de pessoas finalmente reagindo aos ataques de forças alheias mais poderosas. Só que no filme brasileiro os protagonistas são os moradores de Bacurau, e não os americanos. E não estou falando de tempo de tela, nem quantidade de falas, mas um filme que se posiciona a partir do ponto de vista de determinado(s) personagem(ns) e conta uma trama a partir desta visão de mundo.

REACIONÁRIO, INCONSEQUENTE OU INGÊNUO?

 

Vemos Issa sendo subjugado em diversos momentos, violência simbólica, mas também violência física, de maneira devastadora. Sendo conduzido pelos policiais, especialmente Stephane, Os Miseráveis ganha interpretações dúbias, que se distanciam decisivamente de uma maior contundência para a sua sequência final, que aí surge muito mais como uma relação de causa e consequência até boba, do que sobre um estudo sobre as complexas relações que ali se constituem, e as respostas que isso gera.

Parece mais o drama do policial que quer fazer as coisas certas mas não possui meios para isso (sendo sabotado pelos próprios parceiros de farda), do que um relato sobre a maneira como as crianças e jovens são marginalizados e agredidos até colocarem um basta nisso. E uma vez que a violência cumpre papel importante na trama, sendo exibida de maneira explícita, o impacto gerado embaralha ainda mais a compreensão do que Ly quer dizer.

Apesar do tom problemático, no sentido de ‘não entendi o que esse filme quer dizer’, há de se ressaltar a sua câmera, nervosa, filmando as situações de perto, misturando situações em que surge quase jornalística, e depois com bastante movimento, closes, nos jogando no meio do furacão. E também há de ressaltar o bom uso narrativo de um drone (outro paralelo com Bacurau), que funciona como eficiente ponto de virada na trama.

O elenco conta com atuações muito seguras, mas, sem dúvida, o destaque fica para Alexis Manenti, que compõe Chris com uma intensidade gerando vida para todas as sequências do filme. Ele é o responsável pelo teor imprevisível que a abordagem dos policias traz, sempre no limite entre uma agressividade que passa do ponto e uma razoabilidade malandra para lidar com pessoas que mais vale a pena a conversa que o embate. Tem o tom de um bully, que pensa que o trabalho da polícia tem ligação com intimidação, e não com proteger e servir. A cena dele abordando garotas por conta de um baseado é simbólica.

É indiscutível o impacto que Os Miseráveis gera, principalmente por conta do seu desfecho. Mas este impacto guarda tanta subjetividade por trás, tantas possíveis interpretações que vão de reacionário, inconsequente ou até ingênuo, que fica posto que a direção poderia utilizar de maneira mais inteligente a sua estrutura ou o desenvolvimento de determinados personagens para que suas potências não sejam utilizadas para fins contraproducentes. Afinal, não precisamos de um novo Tropa de Elite.

‘Peterloo’: Mike Leigh foca na aula de história e esquece personagens

Mike Leigh fez alguns pequenos grandes filmes que estão entre os mais celebrados do cinema britânico das últimas décadas: Nu (1993), o indicado ao Oscar Segredos e Mentiras (1996), O Segredo de Vera Drake (2004), Simplesmente Feliz (2008), Mr. Turner (2015), entre...

‘The Souvenir’: déjà vu de outros filmes supera qualidades

Aclamado em diversos festivais de cinema, incluindo Berlim e Sundance (do qual também saiu premiado), ‘The Souvenir’ é um filme de narrativa simples com grandes atributos. Para começar, ele é escrito e dirigido unicamente por Joanna Hogg, já conhecida por marcar...

‘Crip Camp’: rico registro de uma revolução nascida do amor

“Crip Camp: Revolução pela Inclusão” é o novo documentário da Netflix com produção executiva do casal Barack e Michelle Obama e aborda um momento da história do ativismo social do qual nem temos consciência hoje porque os benefícios desse movimento foram amplamente...

‘Dente de Leite’: coming of age bem acima da média

Indicado ao Leão de Ouro e vencedor do Prêmio Marcello Mastroianni de Ator Revelação para Toby Wallace no Festival de Veneza de 2019, ‘Dente de Leite’ repercutiu positivamente pelos festivais que passou. Isso se deve principalmente à estreia da australiana Shannon...

‘Luce’: suspense enigmático explora faces do racismo americano

“Luce” se inicia com um aluno de colégio norte-americano discursando para uma plateia de estudantes e pais, um discurso, na verdade, raso sobre o futuro que aguarda os jovens e coisa e tal. O aluno é o tal Luce do título, um jovem negro. Luce Edgar nasceu na Eritreia,...

‘A Batida Perfeita’: superficial tal qual as canções pops de rádio

Veterana em dirigir seriados de comédia leves e divertidas, Nisha Ganatra (‘Transparent’ e ‘Cara Gente Branca’) apresenta novamente seu estilo de narrativa em ‘A Batida Perfeita’, resultando em um filme fácil de ser assistido e que consegue misturar humor com...

‘My Zoe’: Julie Delpy entrega grata surpresa repleta de reviravoltas

Consagrada por seu papel como Céline na trilogia ‘Antes do Amanhecer’, Julie Delpy acumula sucessos na atuação desde a década de 1990, possuindo também uma carreira sólida como roteirista e diretora. Tal combinação rendeu o ótimo drama ‘My Zoe’, protagonizado, escrito...

‘Irresistible’: sátira política incapaz de provocar o público

De duas coisas Jon Stewart entende: política norte-americana e comédia. Então, por que seu novo filme, “Irresistible”, é o autêntico pastel de vento cinematográfico, o tipo de filme que até tem potencial, mas você esquece cinco minutos depois dos créditos rolarem?...

‘Palm Springs’: comédia romântica certeira para órfãos de ‘Dark’

Depois de “Dark”, nenhuma outra produção sobre viagem no tempo vai ser vista da mesma forma pelo público mais jovem. A jornada de Jonas nos tornou mais exigentes e observadores sobre os parâmetros desse subgênero. Em “Palm Springs”, o diretor estreante Max Barbakow...

‘Uma Mulher Alta’: traumas de guerra sob a ótica feminina

Há sempre aqueles filmes que emitem dor sem precisar expressá-la em palavras e um dos subgêneros que faz isso de forma eficaz é o drama de guerra. Em “Uma Mulher Alta”, Kantemir Balagov desperta essa comoção ao fazer um recorte específico e pouco explorado sobre os...