O cinema de horror, juntamente com o musical e o faroeste, sempre foram os pilares da sétima arte, afinal os três são os mais antigos entre os gêneros cinematográficos. O curioso é que a escola americana de horror iniciou sua saga de alimentar o medo nos pesadelos do espectador, adaptando a literatura gótica inglesa entre as décadas de 20 e 40. O Fantasma da Ópera e Drácula iniciaram o ciclo de sucesso dos filmes de “Monstros” dos estúdios Universal. Naquela época, refilmar os clássicos literários de terror era à saída de escape para o público. Em nível de comparação, a Universal e seus monstros eram os representantes da Marvel e seus heróis nos dias atuais.

Com suas atmosferas lúgubres e monstros carismáticos, o horror americano neste período ajudou o público a esquecer as amarguras da vida real – período marcado pela Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão de 1929. Esta fase considerada a era de ouro do cinema de horror americano ajudou a encher os cofres de dinheiro dos grandes estúdios como a Universal e Paramount e definiu o ar de glamour ao gênero, ainda que não necessariamente, trouxe inovação a ele. Por isso, na década de 40, o cinema de horror independente americano – ou underground, caso você prefira – deu seus passos mais ambiciosos.

O modesto estúdio RKO, em parceria com o lendário produtor Val Lewton, investiu no segmento de horror. Diferente dos filmes de monstros da Universal que tinham o intuito de apenas assustar o público, os filmes de Lewton e da RKO visaram o terror sério, polido e atmosférico, com influências diretas do expressionismo alemão e dos filmes Noir. A preocupação era oferecer ao público, filmes que questionassem a natureza humana e sugerissem o medo em vez de mostrar diretamente o terror. Foram trabalhos reflexivos e poéticos na construção narrativa da psicologia dos seus personagens, com o intuito de compreender as verdades interiores da subjetividade humana. Entre a série de filmes neste período, se destacaram os trabalhos de Jacques Tourneur, Sangue da Pantera e A Morta-Viva e os de Mark Robson como A Sétima Vítima e Ilha dos Mortos.

A partir da década de 50 e 60, o horror independente incorporou de vez este espírito de inventividade. Os lendários Roger Corman e William Castle utilizarama criatividade para realizaram filmes B de baixos orçamentos, que misturavam terror e ficção científica, para lotar os drive-insna década de 50. Filmes que provocavam sustos práticos no público, graças suas atmosferas sombrias e um jogo eficiente de câmera e som. Filmes atuais como Invocação do Mal, IT – A Coisa, Sobrenatural, Annabelle e outros, que utilizam da fórmula dos jumpscares, devem muito aos dois cineastas, principalmente Castle, o grande maestro em extrair o medo na sua forma mais cinematográfica possível.

É claro que o terror independente americano sofreria um novo upgrade – que mexeria com toda a estrutura do gênero, inclusive fora dos USA – através de um jovem George Romero, no final da década de 60. Ele elevou o horror a sua modernidade ao inserir crítica social e transformou seus mortos-vivos em figuras politizadas em A Noite dos Mortos-Vivos. Seus “filhotes” funcionavam como alegorias da intolerância social dentro da instabilidade que o país atravessava.

A partir disso, o horror independente americano, deixou de ter compromisso apenas com o medo e o susto, e passou a exercer questões existenciais, políticas e sociais dentro do gênero, com ênfase em diversas temáticas: morte, extinção do ser, sexualidade, violência e questões humanas que dialogavam com o espírito da época – o zeitgeist – em qual foram produzidos.  O cinema de horror americano espelhou e serviu de estudo para as angústias políticas, bélicas e pessoais que a sociedade respirava, em cada época. A década 50 refletiu na mistura do horror com a ficção científica, as preocupações com a guerra fria e o avanço do comunismo. Os alienígenas de Vampiros de Almas (“Eles estão aqui”, profetizava o herói do filme), Guerra dos Mundos e A Bolha Assassina são exemplos perfeitos destas metáforas sobre a xenofobia e o medo da guerra nuclear.

Na década de 60, a Guerra do Vietnã e a proximidade de um holocausto intensificavam a propagação da cultura do medo e alimentavam a paranoia americana em A Noite de Mortos-Vivos de Romero. Wes Craven e Tobe Hooper, na década seguinte, estruturam o horror na área rural americana regado a violência sexual e psicológica em Aniversário Macabro e O Massacre da Serra Elétrica, ao mostrar pessoas “adoráveis” no primeiro contato, mas que se revelavam verdadeiros serial killers sádicos, ou seja, era difícil definir a natureza perversa do ser humano em um simples olhar. Estas pessoas, expressavam a visão do conservadorismo – em voga no mundo de hoje – e da injustiça social – que culminava no aumento da violência – imposto pelo governo de Nixon. John Carpenter utilizou a metáfora do bicho papão para levar o horror a tranquilidade do subúrbio familiar americano em Halloween. O medo e a morte adentravam nas casas americanas de forma espectral.

Esses elementos, por si só, explicam a grande força do cinema de horror independente até hoje. Compreender o seu passado, permite entendermos a fase espetacular que os filmes de terror americanos vêm apresentando de 2015 até agora.  O público (antigo e atual) começou a reconhecer que estes filmes contemplam críticas sociais relevantes por refletirem as crises e angústias sociais da sociedade, como desemprego, violência urbana, segregação racial, modernidade e relações abusivas. O terror americano sempre soube seduzir o público no cinema, muito pela sua essência básica de funcionar como uma válvula de escape para as neuroses do cotidiano. E até hoje continua captando nossos medos da atualidade para produzir o pavor.

O Ciclo de Horror americano independente

O nobre amigo Ivanildo Pereira, lançou um ótimo artigo no Especial de Terror do ano passado, que desconstrói a ideia do pós-horror. Concordo em gênero, número e grau com ele. A essência do horror, desde os seus primórdios, é discutir de forma ampla, temáticas relacionadas aos valores e limites da alma humana. Por isso, não há um novo horror no mercado e sim uma revisitação de conceitos na sua forma e conteúdo para ressignificá-los.

O horror americano independente tem seguido isso muito bem à risca. Há uma vontade maior de apropriar-se de seus códigos e signos, com experimentações de uma linguagem cinematográfica mais ousada, que deixa para segundo plano, os clichês. No fundo, a subversão no gênero tem dado a tônica em relação à submissão nestes três últimos anos. É claro que o cinema comercial americano tende a ser ambíguo e exemplos não faltam sobre estas contradições: alguns dos filmes do universo sobrenatural criado por James Wan como o recente A Freira e os produzidos pela Blumhouse, Sobrenatural – A Última Chave e Verdade ou Desafio são estruturados nos tradicionais jumpscares que parte do público, espera não encontrar nada além deles, nos filmes que pagam para assistir.

Por outro lado, a própria Blumhouse já apresentou seu lado inventivo com obras mais politizadas e psicológicas com Corra e Fragmentado, e este ano, promete fazer uma continuação inventiva para o clássico Halloween de Carpenter. O citado universo de Wan, mostrou sua versatilidade com trabalhos que pensam “fora da caixinha” como os dois Invocação do Mal e Annabele – A criação do mal. Entre os mais recentes filmes de terror americano, IT – A Coisa é o que consegue melhor equilibrar os sustos previsíveis (de abraçar os clichês), ao mesmo tempo que inova na atmosfera e construção de climas. Não é à toa, que o filme quebrou o recorde de bilheteria nos EUA do gênero que pertencia ao clássico Exorcista, até então, o horror americano que melhor conciliava elementos narrativos do cinema comercial com o toque artesanal, também denominado de cinema de autor.

Por isso, dentro do cenário atual de terror, os realizadores independentes americanos do gênero, são pelo menos responsáveis em 50% da renovação que o mesmo apresenta hoje. É o borbulhar de novas idéias e temáticas que atiçam e brincam com a percepção de manipular a sensação do espectador.  Estes elementos que reforçam a força independente do cinema de horror são sintetizados em dois pontos que explicam a crescente onda de sucesso que o gênero respira:

1. Um enfoque maior em histórias de horror psicológico: nos últimos quatros anos, houve a valorização da construção da atmosfera (e ambientação) do horror psicológico, com o cuidado de desenvolver de forma gradativa, medo e o pavor no público. Aqui vale destacar, o belíssimo trabalho de montagem e trilha sonora que realizadores como Mike Flanagan (O Espelho e Jogo Perigoso) e Robert Eggers (A Bruxa) fazem para manipular e brincar com a percepção do espectador. Já em Corrente do Mal e A Enviada do Mal, David Robert Mitchell e Oz Perkins abusam da fotografia em profundidade para nos deixar perdidos em suas histórias assombradas.

2. Trabalhos que constroem na gênese do horror psicológico no seu viés mais assustador: As maiorias dos trabalhos de horror nestes últimos anos partem de situações simples dos seus personagens até eles passarem por transformações (físicas e emocionais) assustadoras. São filmes que possuem uma forte carga dramática, com vários signos e simbolismos inseridos no texto, que mexem com a mente do público pela capacidade de instigar o medo, muito mais pela sugestão do que pela exposição. A Bruxa é sobre a culpa católica e como o patriarcado impõe a mulher esta culpa. Hereditário é sobre o medo e o estado de inquietação da paranoia frente à disfuncionalidade familiar em lidar com a perda. Um Lugar Silencioso fala do ruído de comunicação tão presente na sociedade atual e que na esfera familiar é devastador em razão dos conflitos ocasionados. Até mesmo Verdade ou Desafio e a Morte Te Dá Parabéns, horrores mais modestos, trazem reflexões pertinentes sobre a modernidade e os avanços da tecnologia.

Para fechar, esse artigo: se você tem interesse em descobrir algumas gemas do cinema independente americano nos últimos anos, seguem algumas dicas interessantes:


Resolution (2012) e o Culto (2018)

Se existe hoje dois diretores que esbanjam originalidade dentro da cena underground do horror americano, é a dupla Justin Benson e Aaron Moorhead.   Resolution e O Culto são filmes que fazem parte do mesmo universo, com o segundo (lançado este ano) funcionando como continuação indireta do primeiro filme produzido em 2012. Os dois filmes transitam na zona do horror metafórico, com Benson e Moorhead valorizando o terror manifestado através das relações e necessidades humanas, bem próximos da estranheza de emoções que a literatura de Lovecraft proporciona. Ambos os filmes estão disponíveis no Popcorn.


Garotas da Tragédia (2017)

Os fãs de Pânico terão um prato cheio neste delicioso filme feminino que resgata o espírito cínico do cultuado trabalho de Wes Craven. Um thriller de humor negro que desconstrói com eficiência os clichês do cinema slasher e traz um olhar pertinente sobre a sociopatia nas redes sociais. Também disponível no Popcorn


The Devil´s Candy (2015)

Mesmo australiano de origem, Sean Byrne construiu uma ótima carreira no cinema independente americano. Primeiro com The Loved Ones (que infelizmente saiu da grade da Netflix) e depois com este The Devil´s Candy. Será difícil achar um horror atmosférico mais rock n roll que este aqui. O longa é um macabra homenagem ao horror setentista, que presta uma bela homenagem Heavy Metal a O Iluminado.


Sala Verde (2016)

Se a dica anterior era sobre o horror das notas satânicas do Heavy Metal, Sala Verde segue os três acordes crus e violentos do Punk Rock. Dirigido pelo ótimo Jeremy Saulnier (assista Ruína Azul também dele). Um eficiente thriller psicológico de suspense e horror, que a direção de Saulnier explora através de uma atmosfera inquietante e repleta de simbolismos sobre a degradação humana. O enredo cru e estranho que fala sobre punks nazistas e violência, só deixa o trabalho mais delicioso. Disponível no Netflix.


A Transfiguração (2017)

O encontro inusitado entre os filmes de vampiros como Martin de George Romero e Deixe Ela Entrar com Moonlight. Filme de estréia de Michael O´Shea é uma metáfora sobre a depressão e a solidão na fase infanto-juvenil e que transita entre as temáticas do vampirismo e do serial-killer. A narrativa intimista causa um grande desconforto no espectador.


Super Dark Times (2017)

Outro filme de um estreante no cenário americano (Kevin Phillips). Resgata  a essência do horror mais focado no viés psicológico, onde o medo não advém de figuras monstruosas ou sobrenaturais e sim da natureza humana. Funciona como a versão macabra de Conta Comigo de Stephen King.  Phillips faz um pequeno estudo da puberdade masculina, com garotos assombrados por suas culpas, remorsos e desejos sexuais. Destaque para o ótimo elenco. Disponível na Netflix.