Um retrato bem-humorado de duas personalidades mundialmente conhecidas, “Dois Papas” é um show de atuação à moda antiga que se tornou um inesperado sucesso de público nos festivais de Telluride, onde estreou, e Toronto. O longa, também exibido no Festival de Londres, é o primeiro do brasileiro Fernando Meirelles em oito anos e marca seu retorno à comédia, gênero que não explora desde “Domésticas”, de 2001. 
 
Para a plateia familiar com seu trabalho pungente em “Cidade de Deus“, ou sua devastante adaptação de “Ensaio Sobre a Cegueira“, será um choque se deparar com piadas relacionadas sobre os Beatles, além de uma montagem hilária ao som de “Dancing Queen”, do ABBA. Em nenhum momento, no entanto, o cineasta tem a Igreja como seu alvo: o humor vem das diferentes formas de se enxergar a religião. 

Entre a cruz e… a cruz 

Os “dois papas” do título são Bento XVI (Anthony Hopkins, o eterno Hannibal Lecter) e Cardeal Borgoglio, o atual Papa Francisco (Jonathan Pryce, o Alto Pardal de “Game of Thrones“). O roteiro de Anthony McCarten, adaptado de sua própria peça, abraça as imagens popularizadas dos dois pontífices para criar um duelo intelectual dentro das paredes do Vaticano, com suas divergências políticas sendo expostas e discutidas em longas conversas. 
 
De um lado, Bento se mostra uma figura austera e tão respeitosa às tradições da Igreja que não combate o êxodo de fieis, a falta de fé contemporânea ou os escândalos dentro da instituição. De outro, Francisco aparece como uma figura progressista que acredita que a evolução da Igreja está na capacidade dela, como instituição, de se adaptar aos novos tempos.  
 
Seus posicionamentos são sumarizados aos 30 minutos de projeção, quando Bento declara que “mudar é ceder”, ao que Francisco responde: “A vida que Ele nos deu é mudança”. Dessa forma, a produção se apresenta como uma cômica representação do embate entre os filósofos pré-socráticos Heráclito e Parmênides, com Francisco e Bento defendendo, respectivamente, a visão de cada um. 

Habemus papam 

A despeito do título, Francisco tem um protagonismo mais claro: o grande arco narrativo do longa é sua ascensão ao papado, saindo da periferia de Buenos Aires para o Vaticano. Longos flashbacks dão conta de sua vida pré-sacerdócio e de seu tempo como jovem padre, incluindo as ações durante a ditadura argentina que o tornariam figura eternamente controversa em seu país natal. 
 
No papel, Pryce dá uma das melhores atuações da carreira, chegando a falar espanhol na maioria de suas cenas. Ele consegue passar, apenas com a linguagem corporal, a maneira como muito da dita felicidade de Francisco veio de um lugar de dor, dúvida e culpa profunda. Como sua contraparte, Hopkins faz pleno uso de algumas das melhores piadas do roteiro para humanizar um papa tido como sério e inacessível durante boa parte de seu tempo no cargo. 
 
No fundo, “Dois Papas” quer falar sobre entendimento e aceitação bem mais do que religião. Com duas performances em perfeita sintonia e um diretor com total domínio sobre a obra, o filme merece uma sessão com a família quando entrar no catálogo da Netflix – que o produziu – na semana antes do Natal.  

Bendito seja. 

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