Depois de demorar 26 anos para tirar do papel seu filme anterior, Silêncio, Martin Scorsese finalizou “O Irlandês”, seu novo projeto, em ‘apenas’ 12 anos. Parece adequado para uma história tão enérgica quanto intimista que aborda como o tempo afeta a vida de pessoas violentas. Com três horas e meia, é o filme mais longo da carreira do célebre cineasta, mas com o vigor e a técnica em cena, o tempo voa.

Quase todo drama de máfia acaba sendo comparado com outro filme de Scorsese: “Os Bons Companheiros“, clássico absoluto do gênero. Ao escalar Robert de Niro e Joe Pesci em papéis principais, “O Irlandês” se presta facilmente a essa comparação, mas o ponto de vista aqui é completamente distinto – de certa forma, eles são lados opostos da mesma moeda.

O irlandês do título é Frank Sheeran (De Niro), que, velho e preso a uma cadeira de rodas, relembra a sua vida de matador para o clã mafioso comandado por Russell Bufalino (Pesci), no noroeste dos Estados Unidos. A serviço do grupo, ele se tornou o ponto de contato entre os mafiosos e o líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino), com quem desenvolve uma forte amizade. Eventualmente, os interesses da máfia e de Hoffa divergem, colocando Sheeran num dilema.

Só esse conflito já daria um filme, mas o roteiro de Steven Zaillian – baseado no livro de não-ficção do promotor Charles Brandt, que colheu diversos depoimentos de Sheeran – está mais interessado em fazer um retrato macroscópico da vida no crime e de como o tempo eventualmente consome tudo, não deixando nada além de mágoa e arrependimento em seu rastro.

 HUMOR, CGI, GIGANTES DA ATUAÇÃO: OS PONTOS ALTOS

Por conta disso, o longa tem um ritmo muito mais lento que o esperado de um feito por Scorsese. No entanto, ele confirma um talento do diretor que não costuma receber muito alarde: seu timing cômico impecável. Na medida em que o ponto de vista principal é o de um matador em seus últimos dias, ele lembra com humor das execuções e das brigas entre mafiosos, na ciência de que todas as pessoas que conheceu estão mortas e que nada pode ser feito contra ele.

De Niro, Pesci e Pacino estão impecáveis, ainda que a tecnologia que os rejuvenesceu e permitiu que interpretassem seus papeis durante todo o período da história (por volta de 50 anos) chegue a distrair nos primeiros minutos de flashback. No entanto, passada a sensação de estranhamento, é possível apreciar o trabalho do departamento de efeitos visuais – um dos mais impressionantes desde o oscarizado “As Aventuras de Pi”, de Ang Lee.

A despeito da técnica, as camadas de CGI não seriam nada sem o peso da experiência que os artistas trazem para o filme. Tanto Scorsese e seu trio de atores principais já ultrapassaram os 75 anos e é através desse prisma que a máfia é vista em “O Irlandês” – o prisma de quem sabe que nem todo o dinheiro nem todo o sangue do mundo prepara alguém para o fim.

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