Tenho um pé atrás com produções que buscam abordar personagens reais com o intuito de vender diversidade e inclusão. Essa sensação é mais aguda diante de projetos que discutem personalidades femininas como “Maria Madalena” (Garth Davis, 2018) e “Joana D’Arc” (Luc Besson, 1999), por exemplo. Já que ao invés de ressaltar aspectos importantes da construção de identidade, batem em teclas ligadas a conceitos amplamente abraçados pelo patriarcado, o que nos resta são personagens unilaterais e com baixa profundidade. Esse é o caso de “Os Segredos de Madame Claude” de Sylvie Verheyde.

Disponível na Netflix, a narrativa acompanha Fernande Grudet (Karole Rocher), conhecida popularmente como Madame Claude, responsável por orquestrar uma grande rede de prostituição na França em meados dos anos 1960. Claude se tornou famosa por ter figuras importante no seu quadro de clientes, e, consequentemente, alcançar certa influência no meio político. O roteiro também assinado por Verheyde procura mostrar esse prestigio e como isso contribuiu para sua derrocada.

TOQUES DE NOVELA MEXICANA

A maneira encontrada para recriar sua história é a narrativa em primeira pessoa, como se Claude estivesse abrindo o seu baú de memórias. No entanto, duas coisas depõem contra essa escolha: a ausência de carisma de Rocher e a superficialidade da protagonista. Na verdade, uma coisa está conectada a outra: Verheyde opta por retratar uma personagem calejada pela vida e, portanto, imune a qualquer intempérie.

Mesmo quando as coisas dão errado, Claude se mantém no pedestal e intacta; não há qualquer traço de mudança ou exibição de alguma emoção que não seja as capitaneadas como de mulheres com personalidade forte. Por essa razão, Rocher não consegue ser tão expressiva: seu rosto permanece constantemente fechado e ela passa a sensação de ser uma megera de novela mexicana – mas não no nível de Paola Bracho.

Paralelo a isso, quem ganha espaço é Sidonie (Garance Marillier), uma garota de origem aristocrática que decide imergir no mundo da prostituição. A produção tenta fazer um paralelo entre as duas personagens, mas a construção é confusa que acaba se perdendo. A montagem tenta associar que a ligação entre a empresária e sua pupila seja dúbia e também responsável pela queda da mesma. Mas a conexão entre elas é fragmentada e nunca fica nítida. Há uma áurea de mistério em Sidonie e um quê de ameaçadora, porém, conforme a trama avança, nota-se que ela é uma criança em busca de atenção.

DESIGN DE PRODUÇÃO: A SALVAÇÃO DA LAVOURA

Essa construção de personagens mostra fragilidades na narrativa e nos leva a indagar sobre a relevância das subtramas e o objetivo de Madame Claude. Soma-se a isso a mesclagem de gêneros que a diretora tenta impor e temos uma cinebiografia regada a memórias com plots dramáticos, perseguições policiais, máfia italiana e pedofilia. Colocando tudo isso no mesmo caldo, chega o momento em que entorna e isso prejudica a identificação e empatia com a obra, tornando-a enfadonha e cansativa.

Se você gosta de Paris, no entanto, o design de produção te transporta para a capital francesa em fases diferentes dos anos 1960 a 1980. Thomas Grézaud, que nos encantou em “Retrato de uma Jovem em Chamas”, tem o cuidado estético de criar ambientes que dialogam com o período retratado e mergulham no submundo da prostituição de luxo retratando a boemia ilegal parisiense.

Por mais que esses retratos sejam visualmente bonitos, ainda assim a trama é fraca e não consegue explorar o que foi realmente a vida de Madame Claude. O que é triste para uma realizadora tão cuidadosa como Verheyde e uma personagem tão emblemática quanto a maior cafetina francesa.

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