Quando encontrei Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, eles tinham motivos de sobra para comemorar. O longa da dupla, “Bacurau“, tinha tido uma sessão de gala lotada no Festival de Londres, na esteira de excelentes passagens em Nova York e Cannes – sem falar em uma estrondosa passagem no circuito comercial brasileiro.

Porém, quando entrei na Suíte 11 do Mayfair Hotel, no centro da capital britânica, para entrevistá-los, a felicidade mais visível era decorrente do almoço finalmente ter chegado. Já eram 16h30 e eles já estavam falando com jornalistas há quase duas horas, então pude imaginar o alívio.

Na nossa conversa, falamos sobre o impacto cultural do filme, a recepção internacional dele e – claro – os memes.

Confira o bate-papo abaixo: 

Cine Set: Quais as semelhanças e diferenças da recepção do público de Bacurau no Brasil e no exterior que vocês conseguem perceber?

Juliano Dornelles: Surpreendentemente, não é tão diferente assim.  As pessoas estão com o filme e ligadas com o que está acontecendo no Brasil, algo bem diferente do que ocorreu durante o protesto no tapete vermelho do Festival de Cannes no lançamento de “Aquarius”. Ali, ninguém sabia exatamente o que estava rolando; hoje, está todo mundo ligado. 

Cada lugar tem sua história de conflito, invasão, o que acaba sendo uma história possível de acontecer em qualquer região porque há material humano para isso. No Brasil, claramente, as pessoas entendem muitas referências e, se focarmos somente no Nordeste, isso ainda vai mais fundo. 

Tem sido muito boa todas as reações e experiências com muita procura pelo filme. “Bacurau” tem sido muito falado, muita mídia. Quando vamos para festivais, as sessões estão todas esgotadas.

Kleber Mendonça Filho: Estreou na França semana passada. Ainda terá lançamento nos EUA, Inglaterra, Argentina, Chile, Espanha. O lançamento no Brasil é um sucesso muito grande não apenas de público, mas, também de impacto cultural. 

Nenhum artista pode achar que isso é normal; é raro de acontecer, é algo especial toda esta repercussão. Até para reconhecer, com humildade, que isso é foda (risos).

Cine Set – Como vocês lidam com os memes e as releituras culturais do filme feitas na internet?

Juliano Dornelles: A gente ama! É a alegria das nossas manhãs você acordar e ver os memes novos.

Kleber Mendonça Filho:  Isso não tem dinheiro que pague. As pessoas fazem porque…

Juliano Dornelles: Porque elas estão com tesão no filme! Isso é incrível!

Kleber Mendonça Filho: Eu nunca esqueci uma entrevista do Paul McCartney em um programa infantil em um sábado de manhã, na BBC inglesa. Perguntaram para ele: ‘quando você percebeu que o trabalho dos Beatles estava alcançando as pessoas? Ele respondeu: ‘certo dia, eu estava na cama, às seis da manhã, ouvi o leiteiro chegar e ele estava assobiando “Hey, Jude”. Ok, eu acho que conseguimos’. 

Cine Set – Nos créditos do filme, é informado que cerca de 800 empregos foram criados com a produção de Bacurau. Quantos eram empregos locais? Quais as principais funções dos habitantes dali?

Juliano Dornelles: “Bacurau” foi rodado em Parelhas, interior de Pernambuco, uma cidade com 20 mil habitantes. Somente a nossa equipe base era de 150 pessoas. Elas iriam viver neste lugar por um tempo, porém, a cidade não tinha hotel suficiente para atender todo mundo. Por isso, tivemos que alugar casas assim como veículos para transportar a todos. Isso sem contar a contratação de prestação de serviços – motoristas, faxineiros, carpinteiros, cozinheiros, pintores, pessoal de limpeza, etc. 

Kleber Mendonça Filho: Aliás, tem uma história curiosa: a maior parte da equipe do filme gostava de uma marca de cerveja, porém, chegava no bar e informavam que não tinha. No dia seguinte, já tinha a tal marca, porém, muito cara. Dois dias depois, o preço baixou e assim foi.

Juliano Dornelles: Já tinha começado a competição (risos)! Quando voltamos para exibir o filme pronto, você já vê na cidade um daqueles postos de conveniência com ar-condicionado, equipamentos novinhos, diversos tipos de produtos, ou seja, percebe-se uma movimentação real da economia da região. 

Para comparar a diferença da transformação do local, basta pegar uma foto de antes de chegarmos para hoje em dia. Agora, imagina isso multiplicado para 160 longas-metragens produzidos no Brasil em um ano.

Cine Set – Falando nisso, já é possível sentir o impacto das mudanças para o audiovisual brasileiro trazidas pelo governo Bolsonaro?

Juliano Dornelles: Sim, já estamos vivendo este impacto. Por exemplo: minha companheira de vida foi figurinista de “Bacurau” (Rita Azevedo) e recebeu quatro, cinco convites para trabalhar em novos projetos desde o Festival de Cannes. Todos estes filmes estavam com cronograma de gravações muito bem definidos e, de lá para cá, estamos vendo estas produções serem adiadas ou canceladas por tempo indeterminado. Para mim, isso é um regulador de como as coisas estão.

Kleber Mendonça Filho: Quando você trabalha com dinheiro público, o sistema exige confiança dos dois lados, ou seja, tanto de quem tem responsabilidade fiscal para administrar este dinheiro quanto do artista que precisa confiar na instituição burocrática que administra isso.

Agora, se essa instituição passa a ser usada como uma arma contra os artistas, ela pode ser facilmente desmontada. Basta alguém engavetar um pedido por três semanas e isso já prejudica umas 200 pessoas, afinal, é um dinheiro que não sairá para pagar pessoas que já estão trabalhando em um projeto. Tudo porque alguém, por sacanagem, decidiu engavetar.

É o que está acontecendo com a Ancine (Agência Nacional do Cinema) neste momento. Ela tem sendo inviabilizada do ponto de vista prático e não temos muita ideia de como isso está sendo feito.

Cine Set – Muito se fala sobre o caráter alegórico da narrativa de “Bacurau”, mas o que vocês consideram ser o elemento mais realista do filme?

Kleber Mendonça Filho: “Bacurau” se passa muito bem como um filme de aventura, western, sci-fi, mas, embaixo de todos os seus olhos, é o Brasil cagado e escrito. Todos os problemas que a gente sempre teve se repetindo over and over and over… Essa é a grande questão do filme. 

‘E Como vocês previram isso?’ Ora, está no livro de história (risos).

Por exemplo: a questão das cabeças dos cangaceiros tem paralelo com as questões das rebeliões nas penitenciárias hoje em dia em cidades como Belém, Vitória, Manaus. Os presos tem as cabeças decapitadas e se joga bola com elas. Há quem diga que o filme é violento, mas, eu pergunto: ‘você viu o Jornal Nacional?’.

Cine Set – Aproveitando o assunto, cheguei a ver textos, muitos deles vindo do Sudeste, sobre “Bacurau” incitar uma violência regional. Como vocês analisam esta leitura do filme?

Kleber Mendonça Filho: Muitos destes textos são sobre o próprio autor e não do filme (risos).

Juliano Dornelles: Teve um cara que falou que ‘esse filme era muito ruim, problemático, incita a violência’ e, em um determinado momento, ele diz ‘na terceira vez que eu vi o filme no cinema’. Deixou escapar que foi três vezes no cinema assistir “Bacurau”.

Cine Set – Quais são os próximos projetos de vocês?

Kleber Mendonça Filho: Não sabemos ainda. Está muito cedo. Preciso sair de “Bacurau” para poder ver o que vou fazer. Mas, não descartamos realizar outro filme junto.

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