Os teasers que anunciavam o retorno de The Crown não estavam para brincadeira – essa era, afinal, a temporada mais aguardada por quem acompanha a série. Entra em cena uma jovem tímida, de uma família aristocrática, que parecia ser a escolha mais segura para, um dia, se tornar a rainha consorte da Grã-Bretanha. O fim dessa história a gente já conhece, e é justamente por ela ser tão familiar que a expectativa do público estava na mesosfera. 

Como você, caro leitor, já sabe, a jovem tímida em questão ficou conhecida para o mundo como Diana, a Princesa de Gales. Protagonista das capas de tabloides mais sensacionalistas do século passado, ela fez com que muita gente percebesse que a vida na Família Real não tinha nada de conto de fadas. Mas, é justamente ao desconstruir essa ilusão que é vendida de tempos em tempos – geralmente, a cada Casamento Real, como o da própria Diana com o Príncipe Charles – que a quarta temporada de The Crown supera as suas antecessoras e prepara o terreno para os acontecimentos devastadores que devem ser retratados na quinta etapa da série, ainda sem data de lançamento anunciada. 

A construção de Diana na série é intrigante. Entre o segundo e o décimo (e último) episódios, vemos a mudança à qual ela foi submetida quase que à força. Ainda que uma jovem da aristocracia, ela parecia não ter noção das coisas às quais estava abrindo mão (a principal delas, sua liberdade). Isso é sintetizado de forma brilhante na série, quando vemos os primeiros momentos em que a princesa é perseguida por paparazzi. No rosto dela, um sorrisinho. Alguns episódios depois, um simples flash de fotos em um jantar de família é um terror para ela – e não deixa de ser um presságio. 

Assim como as câmeras dos fotógrafos de todo o mundo, The Crown ama o rosto de Diana – ou melhor, de Emma Corrin. Nos episódios dedicados à Princesa de Gales, há muito slow motion e a escolha de ângulos que nos fazem realmente pensar que estamos vendo a mãe de William e Harry. Nem sempre a atriz tem tanto o que fazer, e nota-se que há uma inexperiência ali, que conta a seu favor em muitos momentos, visto que Diana era realmente uma menina quando se casou. Por outro lado, Josh O’Connor é certeiro ao criar um Charles machista e com uma inveja gigantesca do fascínio que sua esposa exercia – e esses sentimentos fundamentais para o fracasso do casamento ganham muito espaço na temporada, com o episódio que mostra a instável turnê na Austrália, que expõe as inseguranças do herdeiro e o potencial de estrela de Diana.

Já Elizabeth…

Mas por que falo tanto de Diana, quando ela nem aparece tanto na série, e o foco segue com a Rainha Elizabeth? Bem, é inegável que o protagonismo da primeira era um incômodo, já sentido no episódio em que a monarca resolve ter conversas individuais com os filhos, naquele jeitinho forçado que só uma família sem o menor tato consegue. Enquanto Andrew, o favorito da Rainha (e bravo ao roteirista Peter Morgan por lembrar disso, principalmente no momento em que as associações dele com uma rede de pedofilia é notícia em todo o mundo), diz que Charles sente inveja de sua felicidade no amor, Anne fala, ressentida, sobre os aplausos que a imprensa reserva a Diana. Assim, vemos o quão destruidora pode ser a obsessão da mídia britânica em comparar as mulheres da realeza e exaltá-las ou destruí-las por conta de uma cor de roupa ou até mesmo uma escolha de causa para defender. Lembram do poder semiótico de Diana andando em uma área de minas? Para ficarmos em um evento recente, basta dar um Google nas matérias do Daily Mail que exaltavam Kate Middleton por sua “elegância” e “discrição”, enquanto detonavam Meghan Markle, que – pasmem! – ousava aparecer em um evento oficial usando uma roupa preta. Escândalo! 

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Mas, voltando à Rainha, a vemos como uma mediadora dos conflitos já públicos entre o filho e a nora, e aqui temos um diálogo brilhante, onde Elizabeth reserva críticas à princesa por seus casos extraconjugais e pede a ela que siga fazendo vista grossa para os encontros de Charles e Camilla Parker-Bowles. E se as três temporadas anteriores terminam com a Rainha, o fim mostrando Diana já dá uma mostra do que está por vir não apenas em relação à exploração midiática de sua vida, mas também de como ela conseguiria, por um curto período de tempo, tomar a narrativa para si. 

Se, no ano passado, a série ainda parecia sentir o peso da troca de elenco, desta vez temos atores bem mais à vontade com seus papéis – Olivia Colman confere à Elizabeth maturidade e um certo conformismo de quem já havia vivenciado algumas mudanças políticas em duas décadas. Em compensação, ainda sinto falta da Margareth de Vanessa Kirby, talvez porque a atriz tinha mais o que fazer com a personagem do que Helena Bonham Carter, que parece estar sempre no background, com um episódio ocasional para brilhar. Ao mesmo tempo, isso não deixa de ser um reflexo da presença da irmã de Elizabeth na família após a ascensão de Charles ao posto de Príncipe de Gales e seu eventual casamento com Diana. O desconforto causado pelos holofotes voltados para a jovem princesa também se estendeu a Margareth. Acostumada a ser o centro das atenções, ela não consegue nem terminar uma anedota sem que uma inocente interrupção da nova “aquisição” da realeza lhe incomode.

Enquanto isso, na Downing Street…

Mas nem só de princesa Diana vive The Crown. Outro ponto importante na quarta temporada é a gestão de Margaret Thatcher, política do Partido Conservador que foi primeira-ministra por 11 anos, período de grandes conflitos sociopolíticos na Inglaterra e nos países da Commonwealth. 

E é aí que o negócio complica, porque, ainda que se entenda que são muitos fatos e personagens para mostrar em apenas dez episódios, a sensação que fica é que a série não dá a dimensão exata dos efeitos do Thatcherismo. É verdade que o “miolo” da série tem momentos excelentes nesse sentido, como o quinto episódio, que mostra a invasão de um homem aos aposentos da Rainha e a conversa (que aparentemente não ocorreu daquela forma) sobre o descaso dos Conservadores com relação à classe trabalhadora – vale lembrar que, nos anos 1980, o Reino Unido sofreu com altos índices de desemprego e recessão econômica. 

Também há de se destacar a escolha de mostrar o posicionamento de Thatcher em relação à segregação racial imposta pelo Apartheid na África do Sul. Esse episódio, aliás, revela uma grata surpresa aos órfãos de Claire Foy, com uma breve aparição da atriz, em uma reprodução do discurso de uma Elizabeth de 21 anos, que havia acabado de se tornar Rainha. Ao que ela fala, a montagem nos leva aos países que compõem a dita Comunidade das Nações (ou Commonwealth). De volta ao presente, uma Thatcher revoltada diz aos membros de seu gabinete que não entende por que a monarca “perde seu tempo com países instáveis como o Uganda, Malawi, Nigéria e Suazilândia”. Tudo isso enquanto cozinha, de forma displicente, um Kedgeree, prato com origens na Índia, país que fez parte do Império Britânico e depois da Commonwealth até 1947, quando se tornou independente.

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Em compensação, a série falha ao apresentar e depois “se despedir” de Thatcher. Há uma certa condescendência e até mesmo uma tentativa de mostrá-la como uma representante das mulheres – ainda que a mesma diga, em determinado momento, que seu gabinete só teria homens. Mas é esse gabinete que a coloca contra a parede no episódio derradeiro. Ela parece estar encurralada e sua saída do cargo soa quase que uma “injustiça” (coloco aspas para enfatizar a problemática dessa escolha de Peter Morgan). 

Seus momentos de oposição em relação à Rainha não deixam de ser interessantes, mas, ao colocar os hábitos das duas em rota de colisão no episódio ambientado em Balmoral, o resultado é incomodamente favorável à primeira-ministra. E se a posição incisiva de Thatcher em relação à Guerra das Malvinas – que foi fundamental para manter sua popularidade no Reino Unido – é bem pontuada, Morgan pende para o sentimentalismo ao mostrá-la como uma mãe sofrida, sem notícias do filho, que desapareceu enquanto corria um rally (na vida real, o sumiço de Mark não foi concomitante à guerra).

Porém, não dá para não se impressionar com o trabalho de Gillian Anderson. A atriz norte-americana, que tem trabalhado quase que exclusivamente na Grã-Bretanha desde o (primeiro) fim de Arquivo X, realmente se transformou na primeira-ministra, e isso não se resume ao ótimo trabalho da equipe de maquiagem. O trabalho físico de Anderson, e nisso incluo a voz e o sotaque de Thatcher, realmente colocam o espectador em dúvida se está assistindo a mesma mulher que, por tantos anos, foi Dana Scully. Não será surpresa alguma se ela for o nome mais premiado do elenco desta temporada.

E falando em caracterização…

Antes de me despedir deste já longo texto (obrigada se você ainda está acompanhando), preciso destacar o brilhantismo das equipes de figurino e design de produção que, mais uma vez, não apenas estão preocupadas em recriar aquilo que já vimos tantas vezes nas revistas, na internet e na tevê.

Vemos, por exemplo, a evolução de Diana, que vai da menina que usava roupas em tons pastéis e com ares mais infantis, à mulher que se torna cada vez mais interessada em moda, musa das grandes grifes e que, novamente, não escolhe peças de roupa e acessórios à toa – observe o tailleur vermelho, que a destaca no meio de tantos nobres vestidos de bege no natal, em Balmoral, ou o vestido preto estilo Versace, com frente única e ombros de fora (ousadíssimo para os padrões da realeza – novamente, observem as roupas usadas por Meghan Markle). Este último não deixa de representar a rebeldia que finalmente se torna sua marca ao que a temporada termina. 

A reprodução dos palácios e castelos é digna de nota: há um quê de prisão (ou melhor, gaiola de ouro), principalmente nos piores momentos de Diana. Buckingham, por exemplo, surge lúdico apenas quando a jovem, ainda noiva, patina e dança. Balmoral também merece atenção especial: entre metáforas nada sutis sobre caça, o que se tem ali é um ambiente nada acolhedor, e que favorece o distanciamento que tanto marcou a criação dos filhos da rainha.

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O cuidado da série também se estende às rimas narrativas (expressão que uso livremente aqui) com os dias atuais. Além das cutucadas no príncipe Andrew e nos paralelos entre Diana e Meghan Markle, ela também lembra de funcionários e ex-funcionários que, até hoje, servem de fontes “em off” para a imprensa britânica (o que tem de conspiração sobre pessoas do gabinete de William vazando informações para queimar Harry…), ou escrevem seus próprios livros com relatos dos tempos de palácio.

(Falando de fofoca, uma decepção é a omissão da famosa conversa em que Charles diz a Camilla que gostaria de ser seu absorvente interno. Confesso que, a cada vez que os dois apareciam falando ao telefone, achava que esse momento viria. Também senti falta de ver mais da controversa Duquesa de York, Sarah Ferguson, talvez a única amizade que Diana fez na realeza e ela também motivos de dor de cabeça para a Rainha – mas vamos ver se a próxima temporada nos trará as aventuras da Fergie original).

Mas, comentários aleatórios à parte, ao mostrar o conturbado casamento do príncipe Charles com Lady Diana e de retratar a gestão da primeira-ministra Margaret Thatcher, que culminou em uma crise econômica sem precedentes, a “menina dos olhos” da Netflix consegue algo não tão comum assim – em se falando de produtos da plataforma, pelo menos. Isso porque o resultado, mesmo com falhas de percurso, segue tão complexo e intrigante quanto os objetos que retrata.

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