Faz tempo que ouvimos uma ladainha ser repetida por aí: gente falando que “hoje em dia não se pode mais fazer graça de nada”, “o mundo tá chato”, “os tempos politicamente corretos acabaram com a comédia” e blá blá blá. Até o diretor de Coringa, Todd Phillips, saiu-se com essa, explicitando esse raciocínio como a razão para ter se afastado das comédias como o sucesso Se Beber Não Case (2009), do inicio da sua carreira. De tanto ouvir essa cantilena sendo repetida por aí, o cineasta Taika Waititi, diretor neozelandês dos ótimos O Que Fazemos nas Sombras (2014), A Incrível Aventura de Rick Baker (2016) e Thor: Ragnarok (2017), deve ter ficado com vontade de fazer uma careta, dar uns saltinhos no ar e pensado “preciso pegar minha fantasia de Hitler”.

Jojo Rabbit, novo filme do cineasta e baseado no livro “Caging Skies” de Christine Leunens, faz graça com… o nazismo, com Hitler, com a Segunda Guerra Mundial e todo o contexto daquele que é provavelmente o período mais obscuro da história humana.  O filme é sobre o Jojo do título, na verdade Johannes Betzler. É um garoto de dez anos que faz parte da juventude hitlerista na Alemanha. Cresceu aprendendo a odiar – porque ninguém nasce sabendo, não é mesmo? – a idolatrar sua raça ariana e a temer o inimigo judeu, a quem ele julga ter chifres e rabos de demônio. Ah, e ele tem um amiguinho imaginário, o próprio Adolf Hitler, que o incentiva e lhe serve de companhia. Mas, ao longo da história, o menino começa a questionar alguns dos valores que lhe ensinaram ao descobrir um segredo escondido dentro da sua casa, onde mora com sua mãe…

É uma escolha ousada. Afinal, logo de cara, uma parcela razoável do público deve rejeitar a obra só de ler a sinopse ou ver o trailer. E Waititi parece claramente consciente disso e nos joga na realidade do pequeno Jojo logo nos primeiros minutos: se o espectador comprar a ideia, ótimo; se não, o diretor não parece muito preocupado. Usar uma versão em alemão de uma famosa canção dos Beatles como trilha sonora de imagens antigas de Hitler e da histeria do nazismo é o jeito de Waititi – também roteirista do filme – de chutar o metafórico balde e deixar logo claro para o público o tipo de experiência que virá adiante.

Waititi, na verdade, segue os passos de outros cineastas satíricos que ousaram tirar onda com esse tema, como Charles Chaplin e Mel Brooks. No entanto, não demora muito e percebe-se que Jojo Rabbit vai tentar outro desafio: fazer o espectador rir do absurdo num momento e se emocionar no seguinte. No equilíbrio admirável que o filme constrói, a comédia se alimenta do drama e vice-versa, sem que um diminua ou banalize o outro – ao contrário de uma bobagem como A Vida é Bela (1998), Jojo Rabbit não foge do horror da situação e cria um estranho efeito no espectador: a sensação de que estamos rindo de algo que não deveríamos, mas rimos porque é engraçado, e, alguns minutos, depois a vontade é de chorar.

AUDÁCIA COM CORAÇÃO

 

Para construir esse efeito, a atmosfera do filme é determinada pelo olhar infantil. O visual lembra um pouco algo de Wes Anderson, a direção de arte explora cores fortes e a fotografia de MIhai Malaimare Jr. varia de sempre iluminada para cinzenta e sombria, dependendo do momento e do estado psicológico do protagonista. E “Jojo Rabbit”  sabe plantar pistas que acabam adquirindo significado mais à frente na história, como um par de sapatos ou o comportamento diferente de dois oficiais, vividos por Sam Rockwell e Alfie Allen…

Falando nos atores, a maior qualidade do filme é realmente o trabalho do diretor com seus intérpretes. O novato Roman Griffin Davis carrega o filme exemplarmente misturando inocência com momentos de ódio e intolerância. O próprio Waititi faz o seu amigo imaginário, o Führer, e a química dele com Davis é inegável. Rockwell, Rebel Wilson e o pequeno Archie Wilson roubam algumas cenas com seus personagens divertidíssimos, e a jovem Thomasin McKenzie, revelada pelo drama Sem Rastros (2018), completa com Davis o retrato humano do filme. Stephen Merchant, com sua cara de alienígena, está inspirado como um oficial da Gestapo que parece irmão do vilão de Os Caçadores da Arca Perdida (1981). E Scarlett Johansson, como a mãe de Jojo, é a luz do filme: numa atuação inspirada, a atriz conquista o espectador e faz a defesa do filme e da arte.

É preciso dançar, diz ela para o filho. É a arte que nos permite rir da cultura do ódio, da ignorância e do orgulho de ser ignorante. Nem todo mundo vai rir destas piadas, mas é justo: Senso de humor é algo muito pessoal e idiossincrático. O que não se pode negar, porém, é a mistura de audácia com coração que movimenta Jojo Rabbit e que faz dele um filme especial. É preciso, afinal, uma mente especial para conceber um filme assim; uma para a qual o humor não tem limites.

Oscar 2021: Quem Pode Surgir na Disputa? – Parte 2

https://www.youtube.com/watch?v=JsmRtta4Nqg THE TRIAL OF CHICAGO 7 Roteirista premiado com o Oscar por “A Rede Social”, o Aaron Sorkin vem se aventurando nos últimos anos na direção e prepara, agora, o filme mais ambicioso da carreira.  “The Trial of Chicago 7”...

Oscar 2021: Quem Pode Surgir na Disputa? – Parte 1

Caio Pimenta inicia o especial para falar dos possíveis candidatos ao Oscar 2021 e na primeira parte tem David Fincher e Christopher Nolan. https://www.youtube.com/watch?v=Nck_QYS-01c "MANK", DE DAVID FINCHER "Seven", "Clube da Luta", "Zodíaco", "Benjamin Button", "A...

Oscar 2020: Cinco Fatores que levaram à vitória de ‘Parasita’

Caio Pimenta analisa os fatores que levaram "Parasita" a ser o histórico vencedor do Oscar 2020. https://www.youtube.com/watch?v=AwxPOOASJA8 Vencer um Oscar envolve muito mais do que ter “apenas” um grande filme em mãos. É preciso levar em conta uma série de fatores...

Oscar 2020: Resultado do Bolão do Cine Set

Com mais de 250 participantes, o bolão do Cine Set revela quem foi o grande vencedor para levar os Blu-Rays de "Coringa" e "Ford Vs Ferrari", o DVD de "Era uma vez em Hollywood", um livro autografado do Cine Set e dois pares de ingressos Cinépolis....

Oscar 2020: De ‘Parasita’ a Eminem – O Melhor e Pior da Cerimônia

Caio Pimenta analisa quais os melhores e piores momentos do inesquecível Oscar 2020 vencido por "Parasita". https://www.youtube.com/watch?v=fIP1QP_CisY

Oscar 2020: ‘Parasita’ vence Melhor Filme e alcança feito inédito

Quem diria que um dia veríamos isso, senhoras e senhores? O Oscar 2020 vai para uma produção falada em língua-não inglesa e sem astros mundiais. “Parasita” é o Melhor Filme do Ano. https://www.youtube.com/watch?v=7Kj8eNpNpXY Além desse feito histórico, o “Parasita”...

Oscar 2020: Renée Zellweger conquista Melhor Atriz por ‘Judy’

Renée Zellweger conquista o segundo Oscar da carreira. O primeiro foi em Atriz Coadjuvante por “Cold Mountain” e, agora, ela leva por “Judy - Muito Além do Arco-Íris”.   https://www.youtube.com/watch?v=ZDzTP79kCFE Desde setembro, outubro quando comecei com a série de...

Oscar 2020: Joaquin Phoenix vence Melhor Ator por ‘Coringa’

Não tinha como ser diferente: por "Coringa", Joaquin Phoenix é o grande ganhador do Oscar de Melhor Ator. O cara simplesmente dominou esta temporada de premiações: Globo de Ouro, Critics Choice, SAG, Bafta e, finalmente, a primeira estatueta dourada. ...

Oscar 2020: Bong Joon-Ho supera Sam Mendes e vence Melhor Direção

Para tirar o Oscar 2020 do marasmo, uma grande surpresa: Bong Joon-Ho superou o Sam Mendes e levou o Oscar de Melhor Direção por “Parasita”. Essa conquista mantém a categoria sobre o domínio estrangeiro: nos últimos 10 anos, apenas um americano venceu, foi o...

Oscar 2020: Elton John vence Melhor Canção Original com ‘Rocketman’

Outro favorito leva o Oscar 2020: “I´m Gonna Love Again”, de “Rocketman”, conquista o prêmio de Melhor Canção Original. Essa é a segunda estatueta do Elton John: a primeira vez foi com “O Rei Leão” em 1995. https://www.youtube.com/watch?v=fu14i3Bq220 Fica claro que...