Sem uma faculdade ou escola de cinema regular desde o fechamento do curso técnico de audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas após míseras duas turmas formadas, os aspirantes a cineastas em Manaus recorrem a iniciativas de curta duração. Artrupe, Centro Popular do Audiovisual, Coletivo Difusão, Museu Amazônico, Picolé da Massa e o próprio Cine Set já se aventuram neste tipo de iniciativa. Em 2018, foi a vez do Casarão de Ideias através do curso Cineastas em Formação, ministrado por Davi Oliveira e Walter Fernandes Jr. 

Dirigido pela publicitária Maria Yole Bezerra, “Jackselene” é um dos frutos do curso que conseguiu ir mais longe, sendo selecionado para a Mostra Competitiva Norte do Festival Olhar do Norte 2020. Como não poderia deixar de ser, o curta se mostra um competente exercício de aprendizado e experimentações técnicas para jovens iniciantes no setor, ainda que tenha dificuldades em envolver o público em sua trama sobre uma jovem recém-chegada a Manaus que se envolve em um golpe para conseguir subir de vida. 

Nos 13 minutos de duração, nota-se todo o cuidado técnico através de uma decupagem precisa para se alcançar o melhor resultado possível dentro das limitações impostas a uma produção sem orçamento. Com isso, “Jackselene” deixa de lado planos-sequências ou a praga dos drones para apostar no básico de planos gerais, médios, closes em um trabalho econômico, mas bem feito do diretor de fotografia Davi Oliveira, especialmente, na bela sequência inicial em preto e branco.  

A montagem consegue costurar o ritmo do filme em parceria com a trilha marcada por músicas de conhecidas bandas amazonenses como Os Tucumanus, Casa de Caba e Platinados, porém, o que se destaca mesmo é o trabalho de som detalhista e muito bem captado pelo quinteto Juca Fernandes, Ivan Barreto, Anderson Karybáya, Lucas Aflitos e Victor Alexandre. 

MARINHEIROS DE PRIMEIRA VIAGEM 

Tamanho esmero técnico, porém, não ecoa tanto no roteiro. A trama focada mais nos acontecimentos e nos rumos da história impede um desenvolvimento mínimo dos personagens. Podemos até reconhecer a esperteza de Altamira, porém, pouco nos é oferecido para que possamos criar empatia pela anti-heroína.  

Semelhante ao que ocorrera com Isabela Catão em “Enterrado no Quintal”, Thais Vasconcelos, apesar de boa atriz, pouco pode fazer para extrair mais a partir do material de origem. Complica ainda a verborragia à la Tarantino de momentos que deveriam ser tensos, mas, que perdem força por este excesso. 

São pequenas deficiências naturais e compreensíveis de trabalhos de primeira viagem de jovens interessados em fazer cinema. Levando em consideração o curto histórico na formação acadêmica de audiovisual, “Jackselene” merece reconhecimento pelo esforço e tentativa de seus participantes e da equipe do curso em um processo fundamental marcado por erros e acertos. 

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