A realidade é, muitas vezes, mais estranha que a ficção. E a realidade brasileira, então, nem se fala. Neste artigo vou comentar um pouco sobre como o Brasil do Covid-19 se compara com alguns elementos e clichês de filmes de catástrofes e fim do mundo que Hollywood e outros países sempre produziram ao longo das décadas. Afinal, o Brasil não fica atrás de nenhum filme-catástrofe. As comparações foram feitas com base em categorias, então vamos lá…

Comportamento do povo

É comum vermos em filmes apocalípticos a sociedade desmoronando. Brad Pitt e sua família passam um apuro num supermercado sendo saqueado em Guerra Mundial Z (2013), por exemplo. Já em O Nevoeiro (2007), ninguém podia sair do supermercado, sob pena de ser morto pelas criaturas ocultas na neblina. Os filmes sempre nos ensinaram que quando zumbis, vírus ou o Godzilla aparecem, é cada um por si e contrato social é a primeira vítima.

No Brasil, tivemos vislumbres disso, mas do nosso jeitinho brasileiro, com uma pitada de desigualdade social para temperar e o plot twist de que as pessoas não ficaram com medo suficiente. Ao longo dos meses se tornaram frequentes os casos de gente se recusando a usar máscara, e até agredindo policiais e fiscais que tentam obrigá-las, lançando mão da velha conversa do “você sabe com quem está falando?”. Se O Nevoeiro se passasse no Brasil, acho que seria um filme bem mais curto: as pessoas não ficariam tantos dias no mercado… Além disso, visões de shopping-centers cheios com a pandemia rolando inevitavelmente despertam lembranças de O Despertar dos Mortos (1978) de George Romero… Definitivamente, o brasileiro é um povo sem medo.

Comportamento do líder

Ah, nosso líder…

No começo da pandemia, houve quem comparasse nosso psicótico presidente Jair Bolsonaro ao prefeito Vaughn, de Tubarão (1975), pela sua determinação quase cega em manter as praias de Amity abertas e funcionando, em nome da economia, mesmo que alguns banhistas acabassem sendo devorados. Alguns banhistas iam morrer mesmo, ele não iria fazer autópsia num peixe. Não dá para ser coveiro no mar.

Até acho que, nesse início da pandemia, a comparação se aplicava, mas com o tempo Bolsonaro se mostrou tão destrambelhado que acho que outro personagem serve mais como seu análogo no cinema-catástrofe, o do malvadão General McClintock de Epidemia (1995). Interpretado por Donald Sutherland, ele queria detonar a cidadezinha infectada do filme com uma bomba nuclear, só por ser mau. O prefeito Vaughn no decorrer de Tubarão até acabava botando a mão na consciência e fazendo a coisa certa. Já Bolsonaro parece realmente querer que as pessoas morram – dezenas de milhares já morreram e ele nunca demonstrou um pingo de empatia. Por isso, fico com a impressão de que ele quer nos detonar igual ao vilão desta pérola da Hollywood dos anos 1990, que ganhou inesperada relevância em 2020.

Maior solução milagrosa

No próprio Epidemia, os heróis vividos por Dustin Hoffman e Cuba Gooding Jr. descobrem a cura para o tal vírus mortal no espaço de tempo de um terceiro ato de filme, principalmente para salvar a ex-esposa do protagonista – muito bem, Hollywood!  Em Guerra Mundial Z, Brad Pitt também descobria que a solução para enfrentar os zumbis… Era se infectar com outras doenças! Sem contar a franquia Resident Evil, onde o tal vírus apocalíptico da história tinha o efeito colateral de dar – ou tirar, dependendo da conveniência de roteiro – superpoderes para a heroína Milla Jovovich. Como uma vez disse o Jesse em Breaking Bad, “Yeah, science!”.

Nós, brasileiros, adoramos uma solução milagrosa tanto quanto os roteiristas de Hollywood, algo – ou alguém – que vá cair do céu para resolver nossos problemas. A tal da hidroxicloroquina se adequa a esse papel: o remédio propagandeado pelo nosso presidente não tem nenhuma comprovação científica. Isso lembra aquela subtrama do filme Contágio (2011), na qual o jornalista charlatão interpretado por Jude Law tentava empurrar para seu público um remédio que, supostamente, era a cura para o vírus da história. A criatividade brasileira levou isso para o outro patamar, claro, querendo invalidar a ciência e transformar remédios sem eficácia comprovada em política de Estado.

Atitude mais louca

Filmes frequentemente nos mostram que, numa crise longa de proporções apocalípticas, muitas pessoas perdem a cabeça. Em Madrugada dos Mortos (2004), os sobreviventes no shopping começam a fazer tiro ao alvo com zumbis que parecem com celebridades. Em Extermínio (2002), o grupo de militares em isolamento por muito tempo se torna para os heróis uma ameaça maior que os infectados. Em O Hospedeiro (2006), a família sul-coreana perde a cabeça e se esfacela quando o monstro mutante do rio ataca e rapta a garota.

A pandemia mostrou que é mais fácil do que parece perder a estabilidade mental. Não se precisa de monstros ou zumbis. Aqui no Brasil, bastou ficar em casa por alguns meses para vermos muita gente precisar de ajuda psicológica. O isolamento e o bombardeio constante por notícias sobre doença abalou muita gente, e com razão. Por isso, não foi surpreendente, para mim, quando saiu a notícia de que pessoas que assistiam a filmes de terror estavam mais preparadas para encarar a pandemia. Cinema não é só entretenimento; a arte, no fim das contas, também serve para ensinar como se viver.

Perspectivas para o futuro

Nenhum filme previu tão bem o nosso momento de 2020 quanto o já referido Contágio. O roteirista Scott Z. Burns e o diretor Steven Soderbergh anteciparam que uma pandemia global de um vírus de gripe era questão de tempo, que iríamos precisar nos isolar, e que, por um tempo, a sociedade como conhecemos iria entrar em colapso.

O Brasil e, em particular, Manaus tornou realidade uma das cenas mais horripilantes do filme: aquela na qual vemos dezenas de pessoas enterradas em covas coletivas, um momento terrível que teve repercussão mundial. O longa, que teve uma bilheteria apenas razoável no lançamento, foi redescoberto em 2020 devido ao seu realismo, e de fato, dentre todas as invenções de Hollywood e fantasias do cinema, Contágio é o filme que apresentou o cenário mais plausível de uma situação como essa, de longe.

Uma coisa que o filme também retrata é a vacina: ela virá. Não tão rápido quanto a do Dustin Hoffman, mas virá, e pela ciência, essa pobre-coitada tão desprestigiada ultimamente – uma coisa que Burns e Soderbergh não previram foi que haveria terraplanistas e negacionistas em posições de poder enchendo o saco num momento de pandemia global. Enfim, em Contágio, a vacina é descoberta e a vida prossegue.

Mas é um final feliz, do tipo tudo volta ao que era antes? Claro que não.

É certo que a pandemia de Covid-19, graças ao seu alcance global, ainda vai mudar vários aspectos das nossas vidas em anos vindouros. Muito provavelmente, também mudará a forma como vamos consumir produtos audiovisuais. Isso, o próprio cinema ainda não conseguiu prever.

Mas que os filmes do passado realmente nos ajudam a superar este momento, isso é verdade. O problema é que mais brasileiros deveriam tê-los visto.

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