Recentemente, uma pesquisa feita no Rotten Tomatoes elegeu Dark como a melhor série original Netflix. A produção criada por Baran Bo Odar e Jantje Friese interliga quatro famílias da pequena cidade de Winden por meio de laços temporais e consanguíneos e segredos. Fechada em três ciclos, a série alemã mostrou não apenas maturidade e excelência em seu desenvolvimento, mas também nos entregou um dos finais mais esperados, simbólicos e surpreendentes da última década.

Quais são, no entanto, os motivos que destacam Dark das outras séries da Netflix? O Cine Set decidiu fazer uma pequena batalha entre as produções originais mais premiadas do Streaming e a obra alemã e compreender qual o seu segredo.

Protagonistas adolescentes

Stranger Things Vs Dark

Quando Dark surgiu, houve muitas comparações entre ela e Stranger Things. Há quem considerasse a série alemã uma versão européia do sucesso dos irmãos Duffer. Em ambas, um grupo de adolescentes precisa se unir para solucionar o desaparecimento de um amigo. As referências aos anos 80 foram um grande diferencial para a obra protagonizada por Eleven. Curiosamente, um dos ciclos em Dark também faz referência a esse período, no entanto, a semelhança entre as duas narrativas para aí.

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Dark possui uma história mais madura e complexa do que a vista em Hawkins. A produção alemã casa conceitos científicos e filosóficos amplamente discutidos e intricados, devido a faixa etária mais elevada de seus protagonistas, consegue ir além da ficção cientifica, projetando um mix entre drama familiar, terror e tragédia clássica.

Quem não fica impressionado com a presença de Adam ou do Diabo Branco na hora de dormir?

Vencedor: Dark

 

A construção dos Personagens

Ozark Vs Dark

Acredito que um dos principais trunfos em Ozark seja a construção dos personagens e, nesse ínterim, a interpretação de seu elenco. A série criada por Bill Dubuque é instigante e tensa. Nenhum dos personagens é bom e isento de culpa, mas somos levados a torcer pelos Byrds e esperar que cada escolha deles os afunde em um espiral maior de problemas ou de soluções que provocarão impasses futuros.

Apesar de Dark se basear em teorias cientificas e existenciais, o que fala mais alto na série é a humanidade de seus personagens. Relembrando uma fala de Game of Thrones que se encaixa perfeitamente entre os habitantes de Winden, “ah, as coisas que faço por amor”. O que move as escolhas dos personagens é o amor e a dor causada por suas perdas. Isso torna a tensão e a construção de suas personas muito mais instigante, poética e simbólica.

Não é a toa que o final da série alemã vai se perpetuar na mente do espectador por um longo tempo.

Vencedor: Dark

 

Direção

Mindhunter Vs Dark

David Fincher é um dos diretores contemporâneos que mais possuem domínio da linguagem cinematográfica. Isso pode ser visto em cada uma das suas produções, por isso torna-se até fácil identificar quando uma produção possui sua assinatura, este é o caso de Mindhunter.

O diretor orquestra a série com personagens complexos que nos causam incômodo, mesmo os considerados mocinhos. No entanto, seu maior trunfo é a atmosfera que permeia os episódios. Fincher e Joe Penhall – showrunner – constroem um ambiente frio e sombrio, que consegue referenciar com cuidado e exímio a época proposta. Além de investir no diálogo e não em ação como comumente é visto nas séries policiais.

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Surpreendentemente, um dos maiores acertos na direção de Baran Bo Odar é a atmosfera criada em Dark. É esse ambiente que nos faz temer a presença de Noah no primeiro ciclo ou que nos assusta quando vemos o mundo em 2052. A série possui uma forma que é seguida desde o primeiro episódio até a chegada do Paraíso no final do ciclo. Inclusive, provavelmente, depois de Dark você não ouvirá mais “What a Wonderful Word” da mesma maneira.

Vale ressaltar que temos vários mundos e linhas temporais na série alemã e que são bem delimitados pela fotografia, o design de produção e a montagem, o que nos ajuda a compreender a condução da trama e como cada ciclo funciona. Por mais que eu seja uma apreciadora de Fincher, é inegável que os cuidados e detalhes na ambientação criada por Bo Odar são mais complexos.

Vencedor: Dark

Design de Produção e Elenco

The Crown Vs Dark

Uma das séries mais importantes da Netflix é The Crown. A história do reinado de Elizabeth II e os dramas familiares, políticos e de autoaceitação que decorrem em cada temporada angariou súditos da série em todo mundo. Até o mais ferrenho antimonárquico é capaz de enxergar a beleza da série criada por Peter Morgan.

A produção foi considerada uma das mais caras da Netflix e consegue reproduzir, em locações semelhantes, o interior dos cenários utilizados verdadeiramente pela família real britânica. Os cenários, figurinos, cabelos e semelhanças estéticas são alguns dos destaques da produção. Junto com intérpretes renomados como Helena Bonham Carter, Olivia Colman, John Lithgow e Charles Dance.

Algo que incomoda, no entanto, na série inglesa – e que comentamos no vídeo sobre sua terceira temporada – foi a troca de elenco. Por mais que a produção quisesse investir em atores conceituados, algumas diferenças ficaram gritante como altura e cor de olhos. Curiosamente, esse é um dos aspectos que torna Dark uma das séries mais memoráveis dos últimos anos.

A semelhança entre os atores de períodos diferentes é um dos trunfos da série alemã. Antes que fosse confirmado, por exemplo, a filiação dentro da narrativa, a semelhança do casting já denunciava quem poderiam ser. Os atores em Dark parecem complementar-se e, realmente, nos fazer acreditar que se tratam da mesma pessoa. Um exemplo disso é Louis Hoffman e Andreas Pietschmann, ambos interpretam Jonas Kahnwald em diferentes períodos e são extremamente parecidos tanto no jeito de andar quanto de falar e agir. Pietschmann, que faz a ponte entre o Jonas mais novo e Adam, consegue a cada ciclo se assemelhar mais a quem seu personagem vai se tornar.

Em uma série em que viagens dimensionais e temporais servem de condutor narrativo, o design de produção é o que mais contribui para que a ambientação fique clara ao espectador. Esse é mais um acerto de Dark.

Vencedor: Dark

Encerramento

Orange is the New Black Vs Dark

Orange is the New Black foi uma das primeiras séries originais Netflix. A escolha de abordar o sistema penitenciário feminino norte-americano foi uma sacada inteligente, perspicaz e necessária. A representatividade e o modelo narrativo foram outros aspectos que a tornaram um sucesso de público e crítica. No entanto, esse triunfo fez com que o número de temporadas se prolongasse e a fórmula que dava super certo ficasse repetitiva e cansativa. Por isso a última temporada da série entregou um final ok, sem confusões e nem desastres, mas também sem grandes aspirações.

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Talvez o maior êxito de Dark seja esse. Honestamente, não acredito que a série tenha tido “o melhor final em 20 anos”, mas cumpriu o que foi proposto e deixou um nó na garganta que, particularmente, sempre me deixa triste ao relembrar. Bo Odar e Friese fecharam os ciclos no momento certo, com três temporadas bem amarradas e de forma simbólica, bonita e catártica. É o tipo de final que a gente vai continuar discutindo por muitos anos e se emocionando ao lembrar.

Vencedor: Dark

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