Velhos dilemas (ou dilemas velhos?) sobre Manaus formam a base de “De Costas pro Rio”. Dirigido por Felipe Aufiero, diretor amazonense radicado em Curitiba há mais de uma década e co-fundador da produtora Casa Livre Produções, o curta-metragem de 16 minutos aborda a cidade em franca expansão, mas, que ao mesmo tempo, esquece suas raízes, identidades e passado. Uma meta ambiciosa demais para uma execução desencontrada. 

A história acompanha Pietro (Victor Kaleb), um jovem nascido em Manaus, voltando para a capital amazonense após ser convocado por um espírito da floresta para salvar a cidade da destruição da Cobra Grande. Para tanto, ele terá a missão de fazer as pessoas resgatarem este passado através de memórias afetivas e lendas, lembrando as origens manauaras. 

AFETO, IDENTIDADE, MEMÓRIA 

“De Costas pro Rio” busca ser um projeto híbrido, ou seja, transitar de maneira fluida entre o documentário e a ficção, ainda que o foco esteja mais neste último. Para dar certo, porém, é necessário que o equilíbrio entre os dois funcione muito bem e ambos sejam bem construídos; caso contrário, ocorre uma autossabotagem não intencional, pois, o que funciona melhor perde força diante das falhas do que deu errado e vice-versa. Eis o ponto de Aquiles do curta. 

Toda a parte documental do projeto traz uma riqueza identitária, memorial, afetiva da construção de uma cidade. Nela, ouvimos a história do Curupira contada na infância de um hoje jovem adulto; um senhor de origem italiana falando sobre a decisão de vir para Manaus e as diferenças gastronômicas encontradas por aqui; e, por fim, uma garota com pouco mais de 18 anos recordando de uma época em que determinada rua não tinha asfalto e tudo era barro.  

Esta construção ganha força pela direção de fotografia de César Nogueira (“Purãga Pesika”), capaz de registros preciosos de pequenos detalhes e observações agudas seja de casarões abandonados com janelas quebradas, dos orelhões vandalizados, da fiação elétrica desorganizada em contraste aos prédios históricos de beleza arquitetônica europeia. Nada mais simbólico desta cidade quase esquizofrênica. São momentos tão potentes que minimizam a ‘necessidade’ desnecessária de rebater nosso complexo de inferioridade ao quadrado – o brasileiro e o amazônico – de como Manaus é uma cidade com 2 milhões de habitantes onde jacarés não andam pelas ruas, como dito por alguns entrevistados na reta final de “De Costas Pro Rio”. 

AONDE QUER CHEGAR? 

Por outro lado, a parte ficcional diminui grande parte do impacto de “De Costas Pro Rio”. A sequência inicial com Anderson Kary Bayá (ator indígena protagonista de “Antes o Tempo Não Acabava” e “A Terra Negra dos Kawá”) tentando acompanhar/imitar/interpretar ‘apenas’ Luciano Pavarotti na ópera “Caruso (Te Voglio Bene Assai)” ao lado do Teatro Amazonas já mostra o tamanho da pretensão objetivada por Aufiero. O roteiro criado por ele sabe onde quer chegar, mas, não necessariamente como fazer para percorrer o caminho.  

A angústia transmitida por Victor Kaleb a Pietro passa longe de encontrar vazão no que se vê em tela por ser um personagem o qual não temos muitos elementos para criar qualquer tipo de ligação com o drama dele. A conversa com a mãe interpretada por Koia Refskalefsky até insinua esse desenvolvimento ao remeter ao passado dos dois, mas, o desfecho frustrante joga tudo à estaca zero novamente. A cereja do bolo, entretanto, fica para o didatismo à la Christopher Nolan em que não se confia no público e precisa-se dizer tudo literalmente. Claro que estou falando do nonsense encontro entre Pietro e Eduardo Ribeiro (sim, ele mesmo, o primeiro governador do Amazonas no século XIX) e da música dos créditos finais. 

Selecionado para o 24º Festival de Cinema de Avanca, em Portugal, “De Costas Pro Rio” é um projeto irregular com problemas característicos de um jovem diretor – pequenos excessos, didatismo, falta de unidade -, porém, também consegue trazer momentos realmente inspirados, capazes de indicar rumos futuros promissores se bem trabalhados. Mesmo assim, como valor histórico para uma cidade incapaz de olhar para si longe de complexos como Manaus, acaba por ser uma experiência válida. 

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