“Não estamos sozinhas”.

A frase dita por Vânia Lima ao final do encontro de mulheres do audiovisual, dentro da programação do Mercado Audiovisual do Norte 2019 (Matapi), sintetiza bem o espírito da atividade. A diretora do grupo baiano Têm Dendê Produções apresentou dados recentes sobre a situação das mulheres dentro do audiovisual brasileiro e as diversas iniciativas feitas nos últimos anos para mudar este cenário. O intuito era estimular este olhar para criar movimentos semelhantes de fortalecimento feminino também na Região Norte e, especificamente, no Amazonas.

O encontro teve início com dados obtidos junto ao Sistema Ancine Digital em 2018, levando em conta produções com o Certificado de Produto Brasileiro. Foram, ao todo, 2.636 obras entre documentários, ficção, videomusical, realities e conteúdos diversos. Deste total, 20% teve mulheres diretoras, 25% roteiristas, 41% produtoras executivas, 57% diretoras de arte e 12% na direção de fotografia.

Dentro deste cenário desigual, Vânia apontou os diversos movimentos surgidos de valorização e defesa do trabalho feminino no cinema brasileiro, entre elas, o Coletivo Vermelho, o Coletivo das Diretoras de Fotografias do Brasil, as Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema, o Mulheres do Audiovisual de São Paulo, Bahia e Ceará, além de eventos como o Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino, e o Cabíria Festival.

Vânia salientou também a criação do I Fórum Nacional de Lideranças Femininas no Audiovisual com propostas claras de atuação para 2020:

  • Relações institucionais junto ao poder público e iniciativa privada sobre a necessidade de um maior pareamento entre homens e mulheres no setor;
  • Capacitação das Lideranças Femininas;
  • Pesquisas e comunicação unificada para um melhor entendimento do cenário e auxílio em ações;
  • Formalização do Fórum nacionalmente feito através de eventos como o Matapi;
  • Valorização de ações para a diversidade de gênero e raça.

O DESAFIO DA MULHER NEGRA NO AUDIOVISUAL

Representante da Associação de Profissionais Negros do Audiovisual (APAN), Larissa Fulana de Tal citou o clássico livro da autora Gayatri Spivak, “Pode o Subalterno Falar?”, para abordar como as mulheres negras estão muito longe da posição ideal no setor. “Todo mundo pode falar, mas quem é escutado?”, questionou, recordando a pesquisa divulgada pela Ancine, de 2017, que apontou a ausência de filmes dirigidos por negras no circuito comercial.

“Isso reflete o Brasil em que as mulheres negras são a base da sociedade, mas, não possuem acesso a muitas coisas. Há sim muitas de nós produzindo, mas, infelizmente, elas não conseguem ter acesso ao financiamento”, afirmou.

Realizadora fundamental do audiovisual amazonense dos últimos 15 anos, Keila Serruya (“ASSIM” e “Sardinhas em Lata”) utilizou um facão para iniciar a fala. Segundo ela, o instrumento era uma ‘representação performática da performance social do cinema’. “Vejo comportamentos ditos como verdade dentro do cinema, networking feito de forma fake classista e racial. O tom do cinema, com sua hierarquia da classe branca, utilizando termos em inglês, em uma relação de excluir e não comunicar”, afirmou.

“Mesmo que tudo seja feito perfeito, no trabalho do negro, sempre haverá defeito”, afirmou em protesto à falta de acesso dos filmes dirigidos por mulheres negras a financiamento. Keila completou a fala homenageando outras realizadoras femininas locais como Dheik Praia (“Na Rota da Ilusão”) e Elen Linth (“Maria”).

LUTA CONTRA O MACHISMO NO AUDIOVISUAL LOCAL

Garantindo o comprometimento do Matapi com a atuação no debate sobre a igualdade de gênero no audiovisual, Liliane Maia, organizadora do evento e fundadora da Dabacuri Produções e Projetos, Liliane Maia aproveitou a ocasião para cobrar uma maior união da classe do audiovisual como um todo para a participação na construção de políticas públicas para o setor.

Diretora de fotografia e fundadora da Fita Crepe Filmes, Valentina Ricardo abordou o machismo presente dentro do audiovisual amazonense. “A gente vem de uma sociedade patriarcal em que parece que não temos como ir sozinha. O audiovisual mudou muito nestes últimos anos e o meu trabalho veio de uma angústia do que eu posso e não posso fazer. Na fotografia, é difícil de se inserir no mercado. O homem, muitas vezes, subestima a gente na função. O mercado em Manaus é muito machista, há desconfiança. Por isso, comecei a criar caminhos próprios do jeito que eu quero fazer”, afirmou, recordando a experiência de fazer o curta-metragem “O Barco e o Rio”, dirigido e roteirizado pelo amigo e colega de produtora, Bernardo Ale Abinader.

“A gente tende a pensar que a história foi feita e protagonizada por homens por terem sido contadas por eles. Fomos alienadas de muitas coisas. Agora, é preciso contar nossas histórias”, completou

‘Graves e Agudos em Construção’: a transgressão esquecida do rock

‘O rock morreu?’ deve ser a pergunta mais batida da história da música. Nos dias atuais, porém, ela anda fazendo sentido, pelo menos, no Brasil, onde o gênero sumiu das paradas de sucessos e as principais bandas do país vivem dos hits de antigamente. Para piorar,...

À Beira do Gatilho’: primor na técnica e roteiro em segundo plano

Durante a cerimônia de premiação do Olhar do Norte 2020, falei sobre como Lucas Martins é um dos mais promissores realizadores audiovisuais locais ainda à espera de um grande roteiro. Seus dois primeiros curtas-metragens - “Barulhos” e “O Estranho Sem Rosto” -...

‘Jamary’: Begê Muniz bebe da fonte de ‘O Labirinto do Fauno’ em curta irregular

Primeiro trabalho na direção de curtas-metragens de Begê Muniz, conhecido por ser o protagonista de “A Floresta de Jonathas”, “Jamary” segue a trilha de obras infanto-juvenis do cinema amazonense como “Zana - O Filho da Mata”, de Augustto Gomes, e “Se Não”, de Moacyr...

‘O Buraco’: violência como linguagem da opressão masculina

Em vários momentos enquanto assistia “O Buraco”, novo filme de Zeudi Souza, ficava pensando em “Enterrado no Quintal”, de Diego Bauer. Os dois filmes amazonenses trazem como discussão central a violência doméstica. No entanto, enquanto “Enterrado” apresenta as...

‘No Dia Seguinte Ninguém Morreu’: a boa surpresa do cinema do Amazonas em 2020

“No Dia Seguinte Ninguém Morreu” é, sem dúvida, uma das mais gratas surpresas do cinema produzido no Amazonas nos últimos anos. Esta frase pode parecer daquelas bombásticas para chamar a sua atenção logo de cara, mas, quem teve a oportunidade de assistir ao...

‘O Estranho Sem Rosto’: suspense psicológico elegante fica no quase

Lucas Martins foi uma grata surpresa da Mostra do Cinema Amazonense de 2016 com “Barulhos”. Longe dos sustos fáceis, o curta de terror psicológico apostava na ambientação a partir de um clima de paranoia para trabalhar aflições sociais provenientes da insegurança...

‘Tucandeira’: Jimmy Christian faz melhor filme desde ‘Bodó com Farinha’

Fazia tempo que Jimmy Christian não entregava um curta tão satisfatório como ocorre agora com “Tucandeira”. O último bom filme do diretor e fotógrafo amazonense havia sido “Bodó com Farinha” (2015) sobre todo o processo de pesca, cozimento e importância do famigerado...

‘Jackselene’: simbólico curta na luta pelo aprendizado do audiovisual em Manaus

Sem uma faculdade ou escola de cinema regular desde o fechamento do curso técnico de audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas após míseras duas turmas formadas, os aspirantes a cineastas em Manaus recorrem a iniciativas de curta duração. Artrupe, Centro...

‘A Ratoeira’: percepções sensoriais do calor e da cultura manauara

São muito variantes as percepções que se tem de “A Ratoeira”, curta de Rômulo Sousa (“Personas” e “Vila Conde”) selecionado para o Festival Guarnicê 2020. Em seu terceiro projeto como diretor, ele entrega uma obra que experimenta várias construções cinematográficas e...

‘Enterrado no Quintal’: sabor amargo de que dava para ser maior

Tinha tudo para dar certo: Diego Bauer, recém-saído do ótimo “Obeso Mórbido”, adaptando um conto de Diego Moraes, escritor amazonense cercado de polêmicas, mas, de uma habilidade ímpar para construção de narrativas altamente descritivas, sarcásticas, sem qualquer tipo...