Quando “Pacarrete” foi selecionado para o Festival de Gramado deste ano, o filme cearense era visto como um patinho feio dentre as obras em competição. Concorrendo com grandes produções, dirigidas por nomes consagrados como Miguel Falabella (com o aguardado “Veneza”) e Maurício Farias (“Hebe – A Estrela do Brasil”), o longa-metragem de estreia de Allan Deberton parecia ter poucas chances de ganhar algum Kikito.

Contrariando as expectativas, “Pacarrete” terminou sua exibição em terras gaúchas conquistando o público e se tornando o franco favorito do festival. O resultado: varreu a cerimônia de premiação levando oito troféus, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz. Nada mal para o jovem produtor, diretor e roteirista nascido em Russas, interior do Ceará, formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense e com três curtas premiados no currículo.

 “TODO ARTISTA TEM UM POUCO DE LOUCURA”

Allan Deberton queria que o seu primeiro longa fosse rodado na pequena cidade onde nasceu. Por sugestão de um amigo, decidiu se inspirar na história de uma figura bastante popular na região e que fora sua vizinha: a professora de balé Maria Araújo Lima, mais conhecida como Pacarrete (do francês pâquerette, que significa “margarida”), nome de uma personagem que interpretou em uma peça teatral.

Pacarrete nasceu em 1912 e, ainda bem jovem, foi morar em Fortaleza. Na capital, se tornou bailarina e passou a lecionar em escolas importantes. Anos depois, voltou para a terra natal para cuidar de sua irmã doente e lá ficou até o fim da vida (ela faleceu em 2004, aos 92 anos). Apaixonada pelos mais diversos tipos de artes, a professora aposentada travou uma verdadeira batalha com a administração local para que seus projetos fossem realizados, o que nunca ocorreu. Tratada como louca pela população, Pacarrete nada mais era que uma artista incompreendida, com um desejo imenso de criar e mostrar sua arte para o público.

Allan se identificou com a história de sua conterrânea, pois também tentou implantar atividades culturais em Russas por muitos anos e não obteve sucesso. Foi essa identificação que o levou a pesquisar a vida de Pacarrete, registrando entrevistas com pessoas que conviveram com ela. O cineasta precisou confiar na narrativa oral dos moradores da cidade, já que o único material iconográfico existente sobre a professora eram duas fotografias antigas.                                        

A pesquisa se tornou base para o roteiro, escrito pelo diretor em parceria com André Araújo, Natália Maia e Samuel Brasileiro. Doze anos se passaram desde o surgimento da ideia até a sua conclusão, e o filme só se tornou possível graças ao edital Longa BO Ficção, do extinto Ministério da Cultura, que financiou seu orçamento de R$1,25 milhão.

 ELENCO FORTE COMO UM MANDACARU

A protagonista é vivida pela paraibana Marcélia Cartaxo, famosa por interpretar a sonhadora Macabéa de “A Hora da Estrela” (1985), papel que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. Sua Pacarrete se veste com elegantes roupas de época com cores vibrantes (um trabalho belíssimo da figurinista Chris Garrido), utiliza chapéus floridos e seu vocabulário é recheado de expressões francesas. Como ela mesma costuma falar, “Je suis unique!”

Realmente, é uma figura única, mesmo possuindo todas as manias de uma típica senhorinha do interior. Ela passa os dias regando suas samambaias, cuidando da irmã Chiquinha (Zezita Matos) e discutindo com a empregada, Maria (Soia Lira). Vive se irritando com os moleques que batem na campainha de sua casa e saem correndo, além de jogar baldes de água nos pedestres que transitam pela sua calçada, que ela limpa compulsivamente. Pacarrete não tem papas na língua e fala tudo o que pensa. E é exatamente por ter a cabeça cheia de palavras que a bailarina precisa gritar para não enlouquecer, como ela mesma confidencia ao amigo Miguel (o ator baiano João Miguel), por quem nutre um amor platônico.

Na véspera da festa de 200 anos da cidade, Pacarrete decide fazer uma apresentação de balé como presente para a população. Porém, a secretária de cultura (Débora Ingrid) não lhe dá ouvidos e planeja um evento com shows populares. Só que a bailarina é teimosa e não abre mão de subir ao palco, nem que para isso tenha que infernizar a vida da secretária.

A composição histriônica que Marcélia Cartaxo criou para sua personagem causa estranheza no início da projeção, principalmente devido ao tom de voz rouco e gritado. Mas logo o espectador se torna íntimo de Pacarrete e embarca em seus devaneios. Tal conquista é fruto do enorme carisma e talento da atriz.

A veterana, que já havia sido dirigida por Allan no curta-metragem “Doce de Coco” (2010), teve o trabalho de preparação mais intenso de sua carreira, com aulas de balé, francês, piano e canto. Ela também enfrentava diariamente quatro horas de caracterização para envelhecer, num ótimo trabalho da maquiadora Tayce Vale.

O trio feminino formado por Marcélia, Soia Lira e Zezita Matos simplesmente domina o filme e garante momentos hilários e emocionantes, embalados pela delicada trilha sonora composta por Fred Silveira. Zezita, inclusive, entrega uma das cenas mais comoventes, durante um diálogo de sua personagem com a irmã.

Completando o afinado elenco, o cantor e compositor cearense Rodger Rogério, que interpreta o violeiro de “Bacurau”, faz uma pequena participação como um bêbado que atormenta Pacarrete.

BUSCANDO REFERÊNCIAS NA INFÂNCIA

Allan Deberton pertence a uma geração de cineastas que cresceu frequentando as saudosas videolocadoras e assistindo aos clássicos da Sessão da Tarde na TV. Ali surgiram suas primeiras referências cinematográficas e, como não poderia deixar de ser, muitas delas estão presentes em “Pacarrete”. É simplesmente impagável a cena em que a professora assiste a uma apresentação de balé em uma velha fita VHS que, de tanto ser rebobinada, acaba arrebentando dentro do videocassete.

O diretor também brinca com situações absurdas, como o disco de vinil que chega a furar de tanto ser tocado ao longo dos anos. Tem até espaço para a icônica canção “We Don’t Need Another Hero”, gravada por Tina Turner para o filme “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão” (1985). Em “Pacarrete”, ela é executada em uma cena de extrema tensão, filmada com maestria em ângulo zenital. Tal momento, inclusive, marca uma importante virada na trajetória da protagonista.

No segundo ato, o mundo de Pacarrete se fecha. Esta mudança reflete não somente no semblante da personagem, que murcha como uma flor, mas também na fotografia. O que antes era aberto e solar, torna-se fechado e sombrio. Mérito do diretor de fotografia Beto Martins, cujo trabalho atinge o ápice na sequência em que Pacarrete encena o balé “A Morte do Cisne”, uma homenagem à bailarina russa Anna Pavlova, sua maior inspiração.

Através de sua Pacarrete, Allan Deberton faz uma síntese do artista brasileiro: incompreendido pelo povo e subestimado pelo governo, que vê o seu trabalho como algo menor, sem importância, que não valoriza a cultura como o maior patrimônio de uma nação. Mais um fruto da excelente safra de filmes nordestinos produzidos esse ano, o longa deve chegar aos cinemas no primeiro semestre de 2020.

Enquanto isso, a obra vem marcando presença em festivais nacionais e internacionais, emocionando plateias por onde passa. “Um dia as pessoas vão saber quem eu fui”, dizia a bailarina. Graças ao trabalho de Allan, o desejo de Pacarrete finalmente está sendo realizado.

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