“The Father”, novo filme dos diretores Kristina Grozeva e Petar Valchanov, foi o vencedor do Globo de Cristal, prêmio máximo do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary. A produção búlgara acompanha a história de Vasil, um homem de idade avançada que acaba de perder sua esposa, Ivanka. Quando uma mulher chega ao funeral afirmando que a falecida está ligando para seu celular, Vasil decide alistar uma medium para contatar Ivanka.

Kristina e Petar conversaram com o Cine Set sobre a inspiração para o longa e como é ser artista na Bulgária atualmente. 

Cine Set – Em entrevistas anteriores, vocês mencionaram que os primeiros dois filmes da carreira, “A Lição” (2014) e “Glory” (2016), foram planejados como parte de um trilogia baseada em histórias encontradas em jornais. Porém, na divulgação de “Glory”, vocês deixaram em aberto a possibilidade do seu próximo longa ser fora desta proposta. Afinal, “The Father” se encaixa em qual das duas alternativas? 

Kristina Grozeva – “The Father” é um projeto paralelo. Foi uma pequena quebra na trilogia. Agora, continuaremos a trabalhar na terceira parte dela, intitulada “Triumph”.

Petar Valchanov – Esperamos iniciar as gravações no ano que vem, agora que ganhamos do Centro Nacional de Cinema [da Bulgária].

Cine Set – “The Father” possui muitos elementos de comédia em comparação às suas produções anteriores. O que os levou a explorar esta vertente?

Petar Valchanov – Uma razão foi o fato de que a base da história era muito triste – algo que poderia acontecer com qualquer um. Por isso, decidimos contá-la a partir de um ponto de vista engraçado. Também queríamos explorar essa mistura de gêneros e esperamos repetir isso no futuro.

Cine Set – Em pequenas cenas, “The Father” parece fazer comentários sobre aspectos do pós-comunismo no governo e na vida búlgara. Eles são periféricos ao enredo, mas o espectador pode percebê-los. Essas reflexões sobre a herança da era comunista foram intencionais?

Kristina Grozeva – Sim. Construir personagens complexos e incluir muitos aspectos das suas vidas na história era importante para nós. O processo criativo buscou fazer algum tipo de registro da nossa realidade. Foi crucial colocar essas reflexões no filme. No entanto, fomos muito cuidadosos para não priorizar este tópico, afinal, a relação entre pai e filho, no nível pessoal, era mais importante.

Petar Valchanov – O contexto social faz parte dos personagens. Tentamos não colocar isso no centro do filme, mas, sim de forma orgânica dentro da história.

Cine Set – A maioria dos personagens do filme são artistas. Como foi o processo para criar esta visão particular dos artistas de hoje em dia na Bulgária?

Kristina Grozeva – Decidimos que os personagem seriam artistas pelo fato de estarmos inseridos neste meio e essa ser a nossa profissão, o que torna tudo mais honesto…

Petar Valchanov – … e fala sobre pessoas que conhecemos. É parte do nosso background e essa é uma história pessoal. Para nós, era muito importante conhecer essas pessoas.

Cine Set – Algo impressionante em “The Father” é que os artistas em seu roteiro não são nem burgueses nem hippies. Eles parecem ser, por falta de uma palavra melhor, da classe trabalhadora. Como você mencionou que esta é uma história pessoal, a idéia de um artista da classe trabalhadora está presente em sua vida ou na Bulgária em geral?

Petar Valchanov – Na Bulgária, é muito estranho e, para nós artistas, tudo é muito difícil. Talvez seja em todo lugar do mundo, mas…

Kristina Grozeva – …na Búlgaria, é ser artista é um tipo de punição.

Petar Valchanov – Sim, muitos familiares dizem: “Esqueça essa história de ser músico, ator…”

Cine Set – Voltando à história do filme, como ela surgiu?

Kristina Grozeva – “The Father” é baseado em um fato que realmente aconteceu na nossa família. Depois do funeral da mãe de um parente, um vizinho apareceu apavorado e disse: “Sua mãe está me ligando!”. Olhamos o telefone e vimos o nome, a data e o horário da ligação. Ele disse que a ligação ocorrera há dois minutos, sendo que ela tinha sido enterrada três horas antes. Ficamos impressionados e começamos a acreditar que era uma situação sobrenatural. Talvez ela quisesse entrar em contato conosco e dizer algo, mas, depois de alguns minutos, descobrimos uma razão lógica para aquilo ter acontecido. Este foi o gatilho para a trama.

Petar Valchanov – É muito dramático viver estes momentos, mas, com o tempo e a distância, eles acabam se tornando totalmente absurdos e engraçados. Daí, começamos a pensar: “E se formos mais longe com esta história?”

Kristina Grozeva – A relação entre pai e filho foi construída baseada no que vimos ao nosso redor. Acho que é um assunto importante a ser falado. É fundamental tentarmos nos conectar mais e resolver os nossos problemas da melhor forma possível. Acreditamos que essas coisas [disse apontando para um celular] nos conectam, mas, muitas vezes, elas acabam sendo obstáculos na comunicação. É por isso que a falta de comunicação se tornou um dos principais assuntos de “The Father”.

Cine Set – Houve um desejo de usar o aspecto cômico da história como uma maneira de falar sobre o luto e as maneiras como o processamos?

Kristina Grozeva – Fizemos este filme como uma espécie de psicoterapia. Por isso, “The Father” mostra momentos tristes com humor. Esperamos que o público sinta este mesmo efeito porque todos possuem experiências semelhantes. Se algum sortudo ou sortuda nunca passou por isso, infelizmente, ele ou ela passarão. É algo que não podemos evitar e, por isso, tão necessário de se conversar e debater.

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*O jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa.

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