Combinando thriller psicológico e drama social, “Um Crime Comum”, novo filme de Francisco Márquez, vê uma mulher entrar em colapso diante de um senso de culpa coletiva. Uma co-produção Argentina-Brasil-Suíça, o longa, que estreou na Berlinale, marca a única presença brasileira na seleção de longas do Festival de Londres deste ano. 

Cecilia (Elisa Carricajo) é uma professora de sociologia prestes a aplicar para um emprego melhor. Ela conta com a ajuda de Nebe (Mecha Martínez) para dar conta das tarefas domésticas e dos cuidados com o filho Juan (Ciro Coien Pardo) e, de modo geral, goza de uma vida estruturada em um bairro abastado na Argentina.  

Numa noite chuvosa, o filho de vinte e poucos anos de Nebe, Kevin (Eliot Otazo), bate na porta de Cecilia pedindo ajuda. Ela finge não ouvir e se recusa a abrir – e, para seu terror, ele aparece morto em um rio dias depois. Todos os dedos apontam para a polícia, que já vinha perseguindo injustamente o jovem, mas a educadora não consegue negar sua própria responsabilidade no ocorrido. Ela tenta levar sua vida como de praxe, mas aos poucos, o teatro de sua normalidade vai caindo como um castelo de cartas.  

É especialmente simbólico que a protagonista seja uma professora de sociologia extremamente desconectada da realidade social que a cerca. Quando ela se encontra com alunos que pedem ajuda em um trabalho logo no início do longa, ela desqualifica as bases sociais do projeto deles com um discurso academicista que ignora a função social de sua área de estudo. A despeito de seu conhecimento, Cecilia padece de uma cegueira seletiva que a impede de ver além da própria bolha. 

A morte de Kevin a expõe a um mundo onde crimes horríveis são sancionados pelo Estado e onde uma parte da população – majoritariamente indivíduos pobres e não-brancos – é considerada descartável pela sociedade. Subitamente, ela, que também dá palestras na área de economia, se torna ciente da relações de poder e nas dinâmicas raciais ao seu entorno e isso a consome por dentro.

Carricajo – que figurou na seleção do Festival de Londres do ano passado como parte do elenco do épico “La Flor” – dá um show no papel de uma mulher mal conseguindo conter a culpa dentro de si. O longo take aos 25 minutos, por exemplo, no qual ela vai até o rio e passa pelo meio de um protesto para ver o corpo de Kevin com os próprios olhos, é uma aula de atuação.

O roteiro, escrito por Marquéz juntamente com Tomás Downey, traz um subtexto sutil ao traçar um paralelo do destino de Kevin com os “desaparecimentos” ocorridos na ditadura militar argentina. Apesar de se basear firmemente na perspectiva psicológica de Cecilia, “Um Crime Comum” quer denunciar uma questão social que perpassa o Estado e a burguesia do país. O final ambivalente, no entanto, lembra o público de que parte do poder do sistema reside no fato de não haver saídas fáceis dele.

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