Em sua produção como diretora – que, até então, compunha-se dos curtas Strip Solidão (2013) e Dom Kimura (2016) –, Flávia Abtibol já vinha mostrando uma disposição especial para aproximar-se do mundo de seus personagens: é a empatia a qualidade que redime a narrativa “correta” e sanitizada demais de Strip Solidão, assim como é o evidente fascínio da realizadora pelas histórias do ex-lutador de telecatch e radialista Raimundo Maia Israel, o Dom Kimura que dá título a seu outro filme, o que lhe levaria a comunicar tanto entusiasmo naquele precioso trabalho.

A mesma qualidade marca O Céu dos Índios, documentário realizado em parceria com Chicco Moreira, e que, em seus eficientes 23 minutos (26 se contados os créditos finais), abre uma janela para a fascinante cosmologia das etinias indígenas Desâna e Tuiuca, habitantes sobretudo da região do Alto Rio Negro, na fronteira Brasil-Colômbia. Aliás, é importante atentar para o título da nova obra: O Céu dos Índios, nome arriscadamente generalista, é completado nos créditos iniciais pelos nomes das duas etnisas, para que ninguém se engane quanto às pretensões da obra, que não pretende dar conta de todas as visões de “céu” das culturas indígenas.

A premissa é enganosamente simples: resumir, em sua curta duração, como o ato de observar as estrelas é tão importante para a formação da cultura e dos hábitos das duas etnias. Guiados pelo pesquisador e antropólogo desâna Jaime Diákara, aprendemos sobre a importância dessa prática para as duas etnias de forma didática e simplificada, graças a uma inteligente escolha narrativa: o espectador é colocado no mesmo ponto de vista das crianças para quem o pesquisador explica tudo.

O uso discreto e elegante de animações – recurso empregado com sucesso em Dom Kimura – ajuda a dinamizar um filme que é quase todo construído em cima de voiceovers, e mostra a sensibilidade da realizadora para o ritmo. Não se trata, que fique claro, de uma videoaula do YouTube: dada a abrangência do tema – coleções inteiras de mitos, e sua influência prática no cotidiano dessas duas etnias –, a opção pela simplificação ajuda a concentrar o material, fazendo do filme basicamente uma introdução ao tema. O que está ótimo.

 Com sua apresentação respeitosa e cativante de um assunto quase desconhecido, mas nunca menos do que fascinante, O Céu dos Índios reafirma a capacidade de Flávia Abtibol de nos convencer a abraçar, também, as pessoas e histórias que lhe despertaram interesse. O curta ainda cumpre uma nobre função extra: eternizar em filme delicadas amostras da tradição oral de duas culturas prestes a virar acervo permanente do passado – as mudanças climáticas provocadas pela urbanização vêm alterando permanentemente os ritmos da natureza, e nem as estrelas podem nos dizer mais, com precisão, se o que vem a seguir é chuva ou seca, algo que os ancestrais Desâna e Tuiuca foram capazes de descobrir, um dia, apenas olhando para o céu.

‘Boto’ – Episódios 12 e 13: no fim, um charme manauara inebriante

Depois de todos os atrasos possíveis na TV Ufam, “Boto” chegou ao fim. Apesar de deixar claro que não havia tanta trama para a quantidade total de capítulos, a série da Artrupe Produções encerra bem os principais núcleos da história nos dois últimos episódios e volta...

‘Boto’ – Episódios 10 e 11: afetos, traumas e intolerância

Seguindo a irregularidade característica da série, os episódios 10 e 11 de “Boto” conseguem, ao mesmo tempo, trazer momentos brilhantes – talvez, os melhores até aqui – e outros beirando o tédio. A reta final escancara que, apesar de ter cinco protagonistas, cabe a...

‘Boto’ – Episódios 8 e 9: sobra tempo e falta história

Momento confissão: chega a ser difícil escrever algo novo sobre os episódios 8 e 9 de “Boto” em exibição na TV Ufam desde a última sexta-feira, sempre às 23h, no programa Cine Narciso Lobo. Os capítulos voltam a bater nas mesmas temáticas já abordadas anteriormente...

‘Transviar’: trama inchada prejudica foco de série amazonense

As questões relativas à identidade de gênero seguem em alta no cinema brasileiro e são cada vez mais necessárias devido ao crescente fortalecimento do discurso conservador na sociedade. Produções que abordam o processo de transição de personagens transexuais têm...

‘Boto’ – Episódios 6 e 7: série cresce independente de obstáculos

Após episódios monótonos, “Boto” deu uma leve avançada nos capítulos 6 e 7, em exibição na TV Ufam (Canal 8 na Net Digital) até a próxima quinta-feira (11). Grande parte disso se deve ao foco prioritário nos relacionamentos entre os cinco protagonistas, aprofundando...

‘Boto – Episódios 4 e 5’: ou pode chamar de ‘Aquela Estrada 2’

“Aquela Estrada” é o mais bem-sucedido curta-metragem do coletivo Artrupe Produções Artísticas. Dirigida por Rafael Ramos, a produção circulou por festivais nacionais importantes como o Mix Brasil, Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo e Goiânia...

‘Boto’ – Episódios 1, 2 e 3: o protagonismo da enigmática Manaus

Se a política pública de regionalização do audiovisual brasileiro adotada na última década tinha como um dos objetivos dar voz a artistas locais apresentarem realidades de locais pouco vistos na TV e cinema, “Boto” consegue ser um representante certeiro deste processo...

‘O Céu dos Índios’: afeto marca fascinante viagem por culturas indígenas

Em sua produção como diretora – que, até então, compunha-se dos curtas Strip Solidão (2013) e Dom Kimura (2016) –, Flávia Abtibol já vinha mostrando uma disposição especial para aproximar-se do mundo de seus personagens: é a empatia a qualidade que redime a narrativa...

‘Travessia’: dor e poesia na dura vida de imigrantes do Haiti em Manaus

Após uma carreira bem-sucedida em festivais com o documentário performático “Maria”, a diretora Elen Linth apostou num projeto de temática igualmente relevante, mas com uma pegada mais diferente. Trata-se de “Travessia”, longa-metragem de não-ficção dirigido em...

‘Príncipe da Encantaria’: simpático curta expande lenda do boto cor de rosa

O Amazonas é repleto de lendas folclóricas, oferecendo um potencial inestimável para produções culturais. Aproveitando essa bagagem regional que Izis Negreiros ("Santo Casamenteiro") escreveu e dirigiu “Príncipe da Encantaria”. A produção é inspirada em uma das lendas...