Depois de todos os atrasos possíveis na TV Ufam, “Boto” chegou ao fim. Apesar de deixar claro que não havia tanta trama para a quantidade total de capítulos, a série da Artrupe Produções encerra bem os principais núcleos da história nos dois últimos episódios e volta a jogar todos os holofotes na sua principal protagonista: a cidade de Manaus. 

Com poucos diálogos, “Gota d´água”, o décimo-segundo capítulo de “Boto”, é, de longe, o mais sofrido dos episódios. Alex já dá a deixa do tom com um poema sobre angústias cada vez mais insustentáveis e perturbadoras. Os segredos da caixa dele vêm à tona e o que já se desenhara sobre o verdadeiro trauma da infância apenas se confirma, deixando implícito o subtexto sobre a lenda do boto acabar por esconder abusos sexuais cometidos Amazônia adentro.  

LEIA TAMBÉM: Crítica: ‘Boto’ – Episódios 1, 2 e 3: O Protagonismo da Enigmática Manaus

Aqui, cabe ressaltar o desempenho absurdo de Renan Tenca que, mesmo sem precisa falar nada, externa todo desespero e a necessidade de libertação de Alex, como apresentado na bela abertura repleta de simbolismos do último episódio, “Oroboto”. Chega a ser interessante até como ele acaba por puxar os apagados personagens de Daniela Blois e Ítalo Almeida que, finalmente, ganham um pouquinho de relevância nos rumos da trama e ainda rendem um clipe para ‘Bebé’, música para lá de conhecida do repertório da Alaídenegão. 

LEIA TAMBÉM: Crítica: ‘Boto’ – Episódios 4 e 5: Ou Pode Chamar de ‘Aquela Estrada 2’

Por outro lado, Valdomiro (Lucas Wickhaus), responsável por carregar o interesse na trama de “Boto” durante boa parte da série, acaba por perder espaço. Apesar de ser sempre bom vê-lo nos shows como Val dos Prazeres acompanhado pelas dancinhas de Jonas (Eric Lima) e do embromation de Antônia (Thaís Vasconcelos, daria para fazer uma série só dela), o personagem fica em segundo plano, como se já tivesse atingido o auge de sua jornada nos capítulos anteriores, principalmente, se compararmos com Alex. O desfecho da história dele com Betina (Dinne Queiroz) segue uma linha previsível, deixando a sensação de que ela sai de cena com o potencial de que poderia ter sido maior. 

MANAUS enigmática, imprevisível e incerta 

Como dissera na crítica dos três primeiros episódios, a real protagonista de “Boto” é Manaus. Se esteve em segundo plano durante a reta final da temporada, os dois capítulos finais devolvem à capital amazonense seu espaço. Em “Gota d´água”, somos brindados com um delicado passeio entre a cidade que pulsa com velocidade, ao mesmo tempo, que divide lugar com uma singeleza das pessoas humildes sentadas em uma praça ou vendendo mungunzá em sua bicicleta. 

LEIA TAMBÉM: Crítica: Boto – Episódios 6 e 7: Série Cresce Independente de Obstáculos

O auge deste olhar sobre Manaus aparece em “Oroboto” com o poema declamado por Zemaria Pinto. Diferente do caminho mais fácil de exaltação do olhar turístico e propagandista, o trecho, deliciosamente repleto de ironia, analisa o contraste de uma cidade viva, colorida, intensa com todas as suas contradições, autoritarismos escondidos e, como diz o poeta, ‘mediocridades diárias’. 

LEIA TAMBÉM: Crítica: Boto – Episódios 8 e 9: Sobra Tempo e Falta História

Este olhar não complacente em que, ao mesmo tempo, analisa, disseca e se insere, é que faz de “Boto” fascinante nesta construção identitária audiovisual de Manaus, algo longe de um ponto final e que somente uma política de regionalização forte permite elaborar, ao dar autonomia aos artistas locais em contar histórias ficcionais e documentais de suas regiões com seus pontos de vistas, longe de exotismos e idealizações pré-concebidas.  

LEIA TAMBÉM: Crítica: Boto – Episódios 10 e 11: Afetos, Traumas e Intolerância

No término dos 13 episódios, temos uma série de altos e baixos, com momentos inspirados e outros de profundo tédio, reflexo, talvez, desta Manaus ainda tão enigmática, imprevisível e incerta. “Boto”, entretanto, igual a cidade, possui um charme inebriante. 

‘No Dia Seguinte Ninguém Morreu’: a boa surpresa do cinema do Amazonas em 2020

“No Dia Seguinte Ninguém Morreu” é, sem dúvida, uma das mais gratas surpresas do cinema produzido no Amazonas nos últimos anos. Esta frase pode parecer daquelas bombásticas para chamar a sua atenção logo de cara, mas, quem teve a oportunidade de assistir ao...

‘O Estranho Sem Rosto’: suspense psicológico elegante fica no quase

Lucas Martins foi uma grata surpresa da Mostra do Cinema Amazonense de 2016 com “Barulhos”. Longe dos sustos fáceis, o curta de terror psicológico apostava na ambientação a partir de um clima de paranoia para trabalhar aflições sociais provenientes da insegurança...

‘Tucandeira’: Jimmy Christian faz melhor filme desde ‘Bodó com Farinha’

Fazia tempo que Jimmy Christian não entregava um curta tão satisfatório como ocorre agora com “Tucandeira”. O último bom filme do diretor e fotógrafo amazonense havia sido “Bodó com Farinha” (2015) sobre todo o processo de pesca, cozimento e importância do famigerado...

‘Jackselene’: simbólico curta na luta pelo aprendizado do audiovisual em Manaus

Sem uma faculdade ou escola de cinema regular desde o fechamento do curso técnico de audiovisual da Universidade do Estado do Amazonas após míseras duas turmas formadas, os aspirantes a cineastas em Manaus recorrem a iniciativas de curta duração. Artrupe, Centro...

‘A Ratoeira’: percepções sensoriais do calor e da cultura manauara

São muito variantes as percepções que se tem de “A Ratoeira”, curta de Rômulo Sousa (“Personas” e “Vila Conde”) selecionado para o Festival Guarnicê 2020. Em seu terceiro projeto como diretor, ele entrega uma obra que experimenta várias construções cinematográficas e...

‘Enterrado no Quintal’: sabor amargo de que dava para ser maior

Tinha tudo para dar certo: Diego Bauer, recém-saído do ótimo “Obeso Mórbido”, adaptando um conto de Diego Moraes, escritor amazonense cercado de polêmicas, mas, de uma habilidade ímpar para construção de narrativas altamente descritivas, sarcásticas, sem qualquer tipo...

‘O Barco e o Rio’: angústias e desejos sufocados compõem ótimo filme

O Amazonas fechou a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros do Festival de Gramado 2020 com “O Barco e o Rio”. Quarto filme da carreira de Bernardo Ale Abinader, o projeto se mostra um salto evolutivo enorme dentro da filmografia do diretor/roteirista,...

‘Atordoado, Eu Permaneço Atento’: registro arrepiante da ditadura brasileira

O Brasil parece ser um país em que o passado e o presente vêm convergindo nos últimos tempos, e nesse contexto, o curta-metragem Atordoado, Eu Permaneço Atento, co-dirigido por Lucas H. Rossi dos Santos em parceria com o realizador amazonense Henrique Amud, chega como...

‘Manaus Hot City’: experiência afetiva, melancólica, quente e sensorial

Com pouco mais de 10 anos na direção de curtas-metragens de ficção, Rafael Ramos já trilhou os mais diversos rumos indo do convencional de “A Segunda Balada” e “A Menina do Guarda-Chuva" até o lisérgico de “Aquela Estrada”. Todos estes caminhos convergem para “Manaus...

‘De Costas Pro Rio’: dilemas de Manaus em curta irregular

Velhos dilemas (ou dilemas velhos?) sobre Manaus formam a base de “De Costas pro Rio”. Dirigido por Felipe Aufiero, diretor amazonense radicado em Curitiba há mais de uma década e co-fundador da produtora Casa Livre Produções, o curta-metragem de 16 minutos aborda a...