Em certo ponto de “David Byrne’s American Utopia”, filme que registra o recente show que Byrne apresentou na Broadway, o músico faz questão de lembrar o público do Teatro Hudson, em Nova York, de que tudo o que eles estão ouvindo é gerado ao vivo. Ele admite não ter nada contra música pré-gravada em shows, mas para provar que não está usando o recurso, começa a próxima música um instrumento de cada vez, dando ao público do espetáculo – e do filme baseado nele – uma lição de mixagem em tempo real.

O momento parece milhas distante de quando, 36 anos antes, o mesmo músico abriu um show de sua banda Talking Heads em Los Angeles com uma boombox em mãos, anunciando a plateia de queria tocar-lhes uma fita cassete. O show em questão foi imortalizado pelo cineasta Jonathan Demme no longa “Stop Making Sense“, que se tornou o filme de concerto mais laureado da história e a medida através da qual todos os seus pares são medidos.

Ainda que totalmente justificável, é irônico que “Stop Making Sense” tenha se tornado esse símbolo – principalmente porque há um claro senso de deboche e irreverência na maneira como Byrne e seus companheiros de banda encaram o ato de tocar música ao vivo. Com um catálogo de composições intrincadas, largamente baseadas em polirritmos africanos e fisicamente desafiadoras de serem replicadas, a banda optou por um misto de música pré-gravada e ao vivo, teatro, mímica e uma performance atlética de Byrne feita para levantar um dedo do meio às expectativas geradas por um show de rock. 

À sua maneira, “David Bryne’s American Utopia” também quer subverter expectativas. O músico sobe ao palco contando com ele mesmo, uma banda de 11 músicos… e praticamente nada mais. Segundo sua explicação, o objetivo era criar uma experiência musical que retivesse apenas as coisas importantes – que acabaram sendo apenas os músicos e seus instrumentos. Além de uma cortina de correntes que oculta convenientemente os bastidores e, ao mesmo tempo, facilita o acesso a eles, o espectador não tem nada para prestar atenção além da atração principal.

Se ao menos esse desejo passasse pela cabeça de alguém quando essa atração é tão boa. Byrne e cia. deslumbram como um coletivo que canta, toca e dança como uma turba ensandecida, interpretando algumas das músicas mais aclamadas do cancioneiro do indie rock estadunidense, enquanto permite espaço para faixas menos conhecidas, mas, queridas. Fique atento para a versão de “Lazy“, a colaboração do cantor com a dupla dance britânica X-Press 2, e veja a multidão enlouquecer. 

CONEXÃO E EMPATIA COMO PONTES

Embora suas origens e nome sugiram um foco no último álbum de Byrne – intitulado American Utopia – a tracklist do novo filme está repleta de canções dos Talking Heads. Isso significa que o público poderá ver e ouvir novas versões enérgicas de clássicos como “Born Under Punches (The Beat Goes On)”, “Burning Down the House” e a incrivelmente presciente “Once in a Lifetime“. A decisão de incluir essas músicas eleva o show de uma simples ferramenta promocional a um best-of definitivo da carreira do artista e também torna a produção uma espécie de sequência espiritual de “Stop Making Sense“.

De sua parte, Byrne parece cortejar a comparação sem medo algum. Elementos como o terno sendo usado como uniforme e os membros da banda entrando no palco aos poucos remetem ao filme anterior, mas a perspectiva é completamente diferente. Em “Stop Making Sense“, Byrne era um jovem paranoico alertando o público sobre os perigos do consumismo. Em “American Utopia”, ele é um velho olhando para a carnificina da vida contemporânea e calmamente dizendo que há tempo e espaço para mudanças. 

Há também um novo enfoque político nessas músicas que as impedem de ser meras distrações nostálgicas. Recontextualizações hábeis transformam a frenética “I Zimbra” em um grito anti-nacionalista comunal e a nova canção “Everybody’s Coming to My House” em uma apreciação dos imigrantes. “A maioria de nós somos imigrantes”, diz Byrne, ao introduzir a música e apontar suas origens escocesas, “e não poderíamos viver sem eles”.

Também é digno de nota que, para um homem branco que fez carreira a partir dos ritmos negros, Byrne usa sua plataforma aqui para trazer à tona a questão do racismo institucionalizado nos Estados Unidos. Em um momento, o quarterback e ativista político Colin Kaepernick é referenciado durante a versão de “I Should Watch TV”. Além disso, em uma versão inflamada de “Hell You Talmbout” da música Janelle MonáeBryne lista nomes de vítimas negras de assassinatos sancionados pelo Estado, incluindo a vereadora brasileira Marielle Franco.

O tratamento de Lee deste material é um show em si. Sua inserção de imagens das mães das vítimas durante a capa de Janelle Monáe mostra seu ponto com força e precisão. Em outro lugar, ele e a diretora de fotografia Ellen Kuras fornecem muitos pontos de vista para assistir ao show, filmando atrás da cortina, diretamente acima dos jogadores e até mesmo no meio deles, correndo com uma câmera portátil, quebrando as barreiras entre performers e público.

O efeito é similar com os longos takes de Demme em “Stop Making Sense“, feitos de maneira a não individualizar ações, mas dar o escopo completo dos artistas no palco. As ideias por trás das duas distintas abordagens são as mesmas: trazer conexão e empatia – únicas ferramentas capazes de inspirar mudanças verdadeiras – e também facilitar a vida de quem está tentando acompanhar e imitar a dança hipercinética. Ao fim de ambos os filmes, o público deve estar maravilhado – e suado também. 

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