Depois de 2020, vou pensar duas vezes antes de reclamar quando roteiristas de Hollywood inventarem de fazer seus personagens se comportarem de forma ilógica ou irracional frente a um cenário apocalíptico. Em outro bom episódio de Expresso do Amanhã, intitulado “A justiça não embarcou”, a série se aproveita justamente desta noção para deixar claro como, mesmo nas circunstâncias mais extremas, e por mais ilógico que seja, a humanidade simplesmente não consegue deixar certas coisas para trás. Como dividir as pessoas por classes sociais ou poder econômico.

O miolo do episódio é o julgamento da jovem LJ por homicídio. Obviamente uma sociopata – e de novo, merece ser elogiada a atuação da jovem Annalise Basso – ela é a culpada pelo grande rolo que testemunhamos a bordo do trem desde o começo da temporada. No entanto, é também uma privilegiada passageira da primeira classe. Em nome da justiça, Melanie até admite entre o corpo de jurados alguns cidadãos da segunda e da terceira classe. Mas a justiça não é cega no Snowpiercer, e até Melanie percebe que não tem tanto poder a bordo do trem quanto pensa.

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Novamente dirigido por Frederick E. O. Toye, o episódio se move num ritmo ágil. Embora ele não tenha tantas reviravoltas ou tantas oportunidades visuais quanto o anterior, é realmente interessante como a direção mantém o espectador interessado com cenas rápidas e montagem alternada – pulando do julgamento para a cena nas “gavetas” perto do final do episódio. E o roteiro também é ágil: o outro grande acontecimento deste episódio é a busca de Josie por Layton, tensa e até se resolve de maneira mais rápida do que o esperado.

DILEMAS E RASTROS DE HUMANIDADE

Mas o cerne do episódio é realmente o julgamento e sua conclusão, que promete ter desdobramentos bem interessantes. É curiosa a transição da Melanie: de início quase uma antagonista gelada, ela vem se tornando nestes últimos episódios uma figura mais humana – na cena de sexo entre ela e o condutor do trem, a personagem demonstra lamento pela situação em que vive e até um pouco de calor humano. Jennifer Connelly vem exibindo uma atuação sutil e bem construída, transmitindo a luta interna de Melanie com grande competência. Ela começa a sentir a pressão e isso fica claro para o espectador.

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A tensão vem do julgamento e da percepção dela de que consequências virão. O problema de se agarrar às velhas estruturas de classe – especialmente quando elas não fazem mais muito sentido – é que classe gera revolta, e revolta sempre traz consigo potencial para violência e revolução. É o que o final deste episódio parece indicar, e o cerco em torno da administradora do trem está se fechando. E com isso, Expresso do Amanhã está se configurando como uma série bem interessante de se assistir.

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