“We”, o novo filme de Alice Diop, é várias coisas: uma lembrança familiar, uma celebração das vidas comuns e uma busca pela identidade da França nos dias de hoje. Acima de tudo, o documentário, que ganhou o prêmio de Melhor Filme da mostra Encontros do Festival de Berlim deste ano, é um panorama que vê a observação como potente ferramenta de empatia.

Nele, Diop usa uma linha de trem suburbano como ponto de partida narrativo e como elemento conectivo de diversas histórias de pessoas que trabalham nos arredores da capital francesa. A Paris eternizada no cinema está a milhas de distância do foco da lente da cineasta, que está mais interessada em retratar o dia-a-dia de personagens nessas zonas periféricas.

‘O PESSOAL É POLÍTICO’

Há diversos elementos imbuídos no filme da cineasta francesa, vários deles de teor social. Mas ela também incorpora o desejo de resgatar a história de sua própria família em “We”, transitando habilmente entre o observacional e o pessoal.

Sem pesar a mão em nenhuma frente, o filme evita passar uma lição de moral nem se torna uma egotrip. Na linha tênue entre essas duas abordagens, Diop descobre uma rica interseção que reforça a máxima de que “o pessoal é político”.

Aos 17 minutos, por exemplo, durante uma conversa entre o mecânico Ismael e sua mãe, é possível notar o racismo que ele sofre quando ele fala da dificuldade em regulamentar sua documentação e de como deseja voltar ao seu país de origem. Minutos depois, o espectador está assistindo vídeos caseiros de Diop, justapostos a uma missa em homenagem à morte de Luís XVI – o último rei francês. Esse mosaico, o filme argumenta, compõe a França de hoje e todas as suas peças têm igual importância.

DOC MULTIFACETADO

O olho da realizadora é preciso em retratar segregações: o contraste entre a missa cheia de brancos e a estação de trem suburbano cheia de negros é gritante. Mas Diop também acha semelhanças que afagam o coração, como no momento em que uma senhora sob os cuidados da enfermeira N’deye, irmã de Alice, reconta a história de imigração do seu marido. É uma história muito parecida com a dos africanos que buscam oportunidades na França hoje em dia.

A visão multifacetada de “We”, a qual Diop chegou a comparar a uma colagem em entrevistas, ganha uma definição surpreendente durante sua conversa com o escritor Pierre Bergounioux no terço final da produção.

Nela, Diop aparece em cena com o escritor e extrai dele a ideia central de “We”: a vontade de criar um registro das vidas simples, sem o qual elas simplesmente desaparecem, como aconteceu com sua família. Num projeto extremamente necessário, a diretora reafirma o papel do cinema como construtor de uma memória coletiva – e entrega um dos documentários do ano.

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