“Patrick” não foi o único filme da mostra competitiva do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary 2019, na República Tcheca, a abordar a dor de forma cômica – o ganhador do prêmio máximo, “The Father” foi outro exemplar do gênero – mas, este é o único ambientado em um acampamento nudista. Comédia de humor negro repleta de cenas propositalmente constrangedoras, esta produção da Bélgica tem tudo para ser um sucesso entre o público de cinema de arte. 

A nudez em cena se faz notória logo nos primeiros minutos. Passado o choque, o espectador é levado a acompanhar a história do personagem-título (Kevin Janssens), jovem que trabalha com a família administradora do local. Quando seu pai morre, as tensões dentro da comunidade desafiam sua capacidade de manter o retiro em ordem. Em vez de confrontar esta situação, no entanto, ele se torna obcecado com a perda de seu martelo favorito e sai em busca dele. 

Vindo da televisão e estreando em longas-metragens, o realizador Tim Mielants demonstra incrível habilidade de utilizar o pequeno microcosmo do acampamento como fonte de humor, o que lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor em Karlovy Vary. Evitando risadas fáceis, ele demonstra com clareza como o engano e a mentira permeiam nossas relações sociais e como o poder consegue ser atrativo até mesmo nos cenários mais estranhos. 

Toda a trama gira em torno do mistério sobre quem cometeu o roubo, com Patrick sendo uma espécie de detetive. O objeto acaba por simbolizar a perda da inocência do rapaz após a morte de seu pai o expor às dificuldades da vida prática, bem como às vidas ocultas dos campistas. Tal analogia não fica despercebida: Liliane, esposa de um dos membros do grupo que regularmente requer favores sexuais de Patrick, diz claramente que a busca pelo martelo é uma tentativa do jovem de evitar a dor.

DORES DO CRESCIMENTO

No roteiro, escrito por Mielants e Benjamin Sprengers, Patrick é retratado um grande criança, com uma veia introspectiva próxima a de um autista. Sem a proteção de seu pai, ele se vê obrigado, entre outras coisas, a evitar uma tentativa de removê-lo da administração do acampamento e lidar com o fato de que seu pai tinha um caso extraconjugal de longa data. 

Confrontado por estas novas e estranhas situações, ele precisa encontrar força interior para desenvolver um relacionamento saudável com o mundo externo. Em última análise, por ser completamente desprovido de malícia, Patrick só é capaz de funcionar dentro dos parâmetros ditados pelo seu coração – uma decisão que vem com um alto custo. 

Com a ajuda do diretor de fotografia Frank van den Eeden, Mielants enche as imagens com tons amarelos dominando a paleta de cores. Neste paraíso campestre, “Patrick” é um conto estranho sobre as dores do crescimento e sobre a capacidade de uma pessoa se adaptar em face de grandes desafios.

*O jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa.

‘Luzes da Ribalta’: o réquiem de Charlie Chaplin sobre a vida

Se alguém me perguntar quais são os meus filmes favoritos de Chaplin, eu não teria nenhuma dúvida em dizer que são O Garoto e Tempos Modernos, duas obras que traduzem facilmente a essência do comediante: sempre na pele de Carlitos, temos no primeiro o vagabundo...

‘O Grande Ditador’: síntese de regimes totalitários traz Chaplin versátil

Charlie Chaplin é lembrado como um dos grandes nomes da comédia mundial. E também por seu lado humanista. Nunca pensou duas vezes antes de colocar temáticas sociais em seus trabalhos, discutindo problemas como a pobreza e o valor da vida em suas obras. O intérprete de...

‘Tempos Modernos’: crítica atemporal e definitiva ao capitalismo

“Tempos Modernos” talvez seja o filme mais popular de Chaplin e do icônico personagem Carlitos, curiosamente a última obra em que essa persona marcante aparece.  Neste clássico, somos embalados pelos acordes de “Smile” enquanto acompanhamos as desventuras de um...

‘Luzes da Cidade’: Chaplin no auge diverte e emociona como nunca

Já preciso começar declarando que “Luzes da Cidade” não era apenas o filme favorito de Orson Welles feito por Charles Chaplin, mas, o meu também. Talvez por Chaplin estar em seu ápice de absurdo domínio criativo seja na produção, direção, roteiro e composição de uma...

‘Em Busca do Ouro’: equilíbrio preciso entre humor pastelão e melancolia

Com uma filmografia tão extensa e popular quanto si mesmo, Charles Chaplin afirmou em seu livro autobiográfico que gostaria de ser lembrado pelo singelo ‘Em Busca do Ouro’. O longa em questão pode até não ser o primeiro que nos vem à mente quando pensamos na...

‘O Garoto’: economia narrativa encontra sensibilidade máxima de Chaplin

Um lugar-comum que vez por outra é repetido por quem trabalha com cinema é que não se dá para realmente dirigir crianças e animais. Em frente à câmera, eles vão mais ou menos fazer o que eles querem. Bem, talvez hoje em dia seja um pouco mais fácil dirigir crianças,...

‘O Anjo Exterminador’: a rebelião da alta sociedade em confinamento

Grandes obras de arte têm o poder de atravessar o tempo mantendo o seu discurso e estilo tão potentes quanto na época em que foram lançadas. Casos assim são exemplos da capacidade do artista em observar o seu tempo, o comportamento da sociedade em que vive, e daí...

‘O Cremador’: clássico registra a ascensão ‘natural’ de regimes totalitários

Exploração absurda da banalidade do mal, “O Cremador” continua a ser um filme tão vital como foi ao ser lançado em 1969. Uma restauração, apresentada no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano, celebra a abordagem libertária de uma produção que...

‘Estação Central de Cairo’: revolução do cinema egípcio ecoa ainda hoje

Um jornaleiro com deficiência e uma vendedora de mente aberta e sexualmente bem-resolvida não parecem escolhas estranhas para protagonistas em 2019, porém, no Egito dos anos 1950, eles eram tão controversos quanto poderiam ser. No entanto, a decisão de criar uma...

40 Anos de ‘Manhattan’: clássico de Woody Allen resiste à era #MeToo?

Talvez a pergunta mais difícil ao terminar de assistir algum filme com, pelo menos, 30 anos de existência é se ele envelheceu bem ou mal. Qualquer obra de arte é realizada em um contexto cultural específico, cujas particularidades podem sobreviver ou não ao tempo....