O mundo do cinema está mudando graças às novas tecnologias e às novas formas de se consumir e acessar produtos audiovisuais. Os maiores estúdios de Hollywood estão se virando para se adaptar a essas mudanças, por isso este é um bom momento para analisarmos como eles estão e quais as perspectivas para o futuro deles. Nesse artigo vamos falar sobre as trajetórias – às vezes centenárias – dos estúdios, seus principais sucessos e como eles estão lidando com o novo panorama do cinema. Então, sem mais delongas, vamos lá: apresento a vocês os seis grandes estúdios de Hollywood…

Universal Pictures

Dos grandes estúdios hollywoodianos da atualidade, a Universal é tecnicamente o mais antigo: Foi fundada em 1912 por Carl Laemmle (1867-1939), um alemão que se mudou para os EUA e foi um dos pioneiros do cinema. A Universal se tornou grande com os filmes de Monstros produzidos a partir dos anos 1930: Em plena depressão, o estúdio enchia os cofres graças a Drácula (1931) com Bela Lugosi e Frankenstein (1931) com Boris Karloff, além de outros, definindo várias características dos gêneros terror e fantasia no cinema.

A Universal também foi a casa de Alfred Hitchcock durante sua fase áurea em Hollywood e produziu o primeiro grande blockbuster: Tubarão (1975), de Steven Spielberg. A associação de Spielberg com o estúdio é lendária: Lá ele também dirigiu os mega-sucessos E.T.: O Extraterrestre (1982) e Jurassic Park (1993), além do vencedor do Oscar A Lista de Schindler (1993), e produziu a trilogia De Volta para o Futuro¸ entre outros.

Atualmente a Universal vai muito bem, obrigado: Suas franquias Velozes e Furiosos e Jurassic World arrecadam bonito nas bilheterias, e frequentemente um Bourne ou Cinquenta Tons também enche o caixa. Além disso, o estúdio investe pesado na busca por produções independentes, distribuindo-as pela sua bandeira principal ou pelo selo Focus Features, o braço da Universal para lançamentos mais modestos e alternativos. Dentre os sucessos saídos da Focus Features, destacam-se Encontros e Desencontros (2003) de Sofia Coppola, e O Segredo de Brokeback Mountain (2005) de Ang Lee. Graças a essa iniciativa, a Universal hoje é o lar de Jordan Peele, autor dos sucessos Corra! (2017) e Nós (2019), e da Blumhouse, a produtora de terror de Jason Blum que não dá uma bola fora nas bilheterias.

Paramount Pictures

O estúdio da montanha foi fundado em 1912 também, com o nome Famous Players Lasky. A Paramount produziu o primeiro vencedor do Oscar de Melhor Filme, Asas (1927). A glória da Paramount veio nos anos 1960 e 1970, quando produziu filmes emblemáticos da “Nova Hollywood” como O Bebê de Rosemary (1968), O Poderoso Chefão (1972), A Conversação (1974), Chinatown (1974) e Os Embalos de Sábado à Noite (1977), entre outros.

Nos anos 1980, franquias populares como Indiana Jones, Star Trek e Sexta-Feira 13, além de mega-sucessos como Um Tira da Pesada (1984) e Top Gun (1986), fizeram a fortuna do estúdio. Nomes como Eddie Murphy e Tom Cruise devem suas carreiras à Paramount. Nos anos 1990, o oscarizado Forrest Gump (1994) representou mais uma glória para o estúdio.

Hoje, a Paramount anda meio em baixa: Embora as franquias Transformers e Missão Impossível ainda levem multidões aos cinemas, o estúdio sente falta de mais sucessos. Na década de 1990, a Paramount se dava muito bem com filmes de orçamento médio ancorados por astros ou conceitos interessantes. O recente sucesso de Um Lugar Silencioso (2018) talvez indique que retomar essa estratégia poderia ser um bom negócio para o estúdio.

Walt Disney Pictures

Fundada em 1923, a casa do Mickey fez seu nome com animações revolucionárias como Branca de Neve e os Sete Anões (1937) e Fantasia (1940). Na década de 1950, começou a produzir filmes live-action com tom familiar. Apesar disso, embora nem todos hoje se lembrem, por muito tempo a Disney possuiu selos para financiar e lançar filmes com temáticas adultas, como a Miramax, que revelou Quentin Tarantino com Pulp Fiction (1994) e ganhou vários Oscars; e as produtoras Touchstone Pictures e Hollywood Pictures, de onde saíram grandes sucessos como Uma Linda Mulher (1990) e O Sexto Sentido (1999).

Mas, claro, hoje em dia quando se fala em Disney, pensa-se logo nas animações e nas grandes franquias do cinema. Além de desenvolver uma bilionária franquia baseada numa atração dos seus parques – a cinessérie Piratas do Caribe – a Disney comprou a Pixar Animation Studios, a Marvel e a Lucasfilm. Hoje, é o maior estúdio hollywoodiano, sem dúvida: Até o momento, das 10 maiores bilheterias mundiais de 2019, metade é da Disney, e é a única grande produtora de Hollywood, hoje, imune aos fracassos e à transformação estrutural do cinema. A Disney em breve lançará seu próprio serviço de streaming e recentemente concluiu a compra do estúdio 20th Century Fox – mais sobre ele daqui a pouco – indicando que a sua fatia da bilheteria mundial só tende a crescer.

Warner Bros. Pictures

O estúdio dos quatro irmãos Warner – Harry, Albert, Sam e Jack – foi fundado em 1923 e no começo se destacou pelo pioneirismo. Produziu o primeiro filme sonoro – O Cantor de Jazz (1927) – e também dramas sociais e o marcante ciclo de filmes de gângsteres nos anos 1930, revelando atores como James Cagney e Humphrey Bogart. Este último estrelaria um dos maiores clássicos da Warner, Casablanca (1942), vencedor do Oscar de Melhor Filme.

Grandes nomes foram revelados ou fizeram seus melhores filmes pela Warner: Bette Davis, James Dean, Paul Newman, Marlon Brando, John Wayne…  A partir dos anos 1970, a Warner ganhou a reputação de ser o estúdio que mais dava liberdade aos diretores: Foi lá que nomes como Clint Eastwood, Sidney Lumet, Martin Scorsese e Stanley Kubrick brilharam, produzindo vários clássicos. Nessa época, também, William Friedkin dirigiu aquele que ainda é um dos maiores sucessos da história do estúdio, o clássico do terror O Exorcista (1973).

O Pernalonga é símbolo do estúdio, que produziu várias animações bem sucedidas com o personagem e sua turma. Também são propriedade do estúdio os super-heróis da DC Comics, que já tiveram diversas encarnações nas telas. A Warner produziu Matrix (1999), que revolucionou os efeitos no cinema, e a franquia Harry Potter. Por causa dessas grandes propriedades, a WB é hoje o segundo maior estúdio de Hollywood, mesmo apesar de alguns fracassos recentes. Dentro dela, o selo New Line também é responsável por diversos sucessos. A New Line revelou David Fincher com Seven (1995) e Paul Thomas Anderson com Boogie Nights (1997), além de ter produzido a épica trilogia O Senhor dos Anéis, e de ser o lar atual de bem sucedidos títulos de terror como o universo de Invocação do Mal e It: A Coisa (2017). Quanto aos diretores, o novo ícone da WB é o britânico Christopher Nolan, cujos filmes já arrecadaram bilhões nas bilheterias.

Num futuro próximo a WB também deve lançar seu streaming, com o catálogo do estúdio, suas animações, séries da Warner Television e HBO. A briga com a Disney será feroz…

Columbia/Sony Pictures

A Columbia Pictures foi fundada por Harry Cohn, um dos sujeitos mais casca-grossa da história de Hollywood, em 1924. Seus primeiros grandes sucessos foram as comédias e dramas do diretor Frank Capra, como Aconteceu Naquela Noite (1934), vencedor do Oscar de Melhor Filme – Aliás, o estúdio tem a maior quantidade de vencedores do Oscar dentre todos, com 12 premiados como Melhor Filme. Aí vão alguns: A Um Passo da Eternidade (1953), Sindicato de Ladrões (1954), A Ponte do Rio Kwai (1957), Lawrence da Arábia (1962), O Homem que Não Vendeu Sua Alma (1966)… Também revolucionou o cinema norte-americano com Easy Rider: Sem Destino (1969).

Nos anos 1970 o estúdio entrou em crise, mas se recuperou. Nos anos 1980 foi comprado, primeiro pela Coca-Cola e depois pela Sony, e mais sucessos vieram: Gandhi (1982), Tootsie (1982), Os Caça-Fantasmas (1984), Drácula de Bram Stoker (1992), O Quinto Elemento (1997), Melhor é Impossível (1997), MIB: Homens de Preto (1997). Nos anos 2000, o maior herói da Marvel encheu os cofres do estúdio com a trilogia do Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi, e a Columbia/Sony se associou à claudicante MGM para produzir os filmes de James Bond estrelados por Daniel Craig.

A Columbia/Sony sofreu bastante nos últimos anos com o ataque hacker da Coréia do Norte em retaliação ao filme A Entrevista (2014), e com tentativas fracassadas de reboot de franquias como Caça-Fantasmas e MIB. Mas teve seu maior sucesso em anos recentes com Jumanij: Bem-vindo à Selva (2017), que ajudou a reerguer a combalida produtora, com a ajudinha do Marvel Studios, que assumiu a parte criativa dos filmes mais recentes do Homem-Aranha. Depois de alguns anos difíceis, o futuro para a Columbia/Sony parece promissor.

O estúdio também possui seu selo de produções independentes e alternativas, a Sony Pictures Classics, que ajudou a produzir e distribuir títulos como o nosso Central do Brasil (1998) nos EUA, além de Corra Lola Corra (1998), O Tigre e o Dragão (2000), Capote (2005), Lunar (2009) e Me Chame Pelo Seu Nome (2017).

20th Century Fox

O estúdio da raposa foi fundado em 1935. Produziu musicais, filmes clássicos de John Ford como As Vinhas da Ira (1940), revelou Marilyn Monroe e lançou o primeiro filme em widescreen, o épico bíblico O Manto Sagrado (1953). O estúdio penou com a megalomania de Cleópatra (1963) e quase foi à falência, mas se reergueu com o sucesso de A Noviça Rebelde (1965). A Fox também foi dona de grandes franquias de ficção-científica, como Planeta dos Macacos, Alien, Predador, X-Men e Star Wars, tendo produzido o filme original de 1977 de George Lucas e distribuído O Império Contra-Ataca (1980), O Retorno de Jedi (1983) e a trilogia prequel.

Os maiores sucessos da Fox foram, claro, Titanic (1997) e Avatar (2009) de James Cameron, dois projetos arriscados, mas que compensaram e muito nas bilheterias.  Outros sucessos e filmes marcantes do estúdio são Patton (1970), MASH (1970), Operação França (1971), Duro de Matar (1988), Esqueceram de Mim (1990), Independence Day (1996) e, mais recentemente, Perdido em Marte (2015), Deadpool (2016) e Bohemian Rhapsody (2018).

O braço independente do estúdio, a Fox Searchlight, tem um histórico de glórias no Oscar, tendo produzido e/ou distribuído Quem Quer Ser um Milionário? (2008), 12 Anos de Escravidão (2013), Birdman (2014) e A Forma da Água (2017), todos vencedores de Melhor Filme. Como mencionado, a Fox foi comprada pela Disney, então ainda teremos de aguardar para ver como o estúdio (e a Fox Searchlight) vão funcionar sob a tutela do Mickey. Mas torço para que a gloriosa história da Fox se mantenha viva, que o estúdio opere com ao menos um pouco de independência, e que aquela fanfarra legal ainda continue sendo ouvida nas salas de cinema mundo afora.

Estúdios menores

Quanto às companhias menores em operação, podemos mencionar a icônica MGM, que hoje opera em menor escala se associando à Warner, por exemplo, para produzir a trilogia O Hobbit e os filmes Creed, derivados da franquia Rocky; e a Lionsgate, que surgiu nos anos 1990 e, apesar da existência breve, já produziu franquias de sucesso como Jogos Mortais, Jogos Vorazes, Os Mercenários e John Wick, além de ter produzido um “quase vencedor” do Oscar com La La Land (2016).

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