Unindo dois titãs do cinema, “A Voz Humana” é um filme cuja primeira foto de bastidor já foi suficiente para quebrar a internet cinéfila. A visão do diretor espanhol Pedro Almodóvar ao lado da atriz britânica Tilda Swinton veio cheia de promessa e o curta – que estreou com toda a pompa e circunstância em Veneza e foi exibido no Festival de Londres deste ano – certamente não deixou a desejar. Com 30 minutos, o projeto pode não ter o escopo narrativo das grandes produções do cineasta, mas tem requinte de sobra e uma energia irresistível. 
 
A trama, adaptado livremente por Almodóvar a partir da peça clássica de Jean Cocteau, acompanha uma mulher (Swinton) três dias depois de ser abandonada pelo companheiro. Ela anseia pela voz do amado, como o título indica – por um pouco mais de amor, um pouco de compaixão e um senso de encerramento da história que eles viveram juntos por quatro anos. O roteiro dá algumas dicas – ele tinha outra mulher, por exemplo – mas nunca provê um retrato detalhado dessa relação. 
 
Nem mesmo a personagem interpretada por Swinton ganha muitos contornos. Estabelece-se muito cedo que ela é uma mulher intensa – ela compra um machado e destroi um terno do amante com ele – mas para além disso, muito pouco é divulgado sobre sua trajetória. Ela é a arquetípica mulher almodovariana por excelência: quase criminosamente passional, à beira de um ataque de nervos e impecavelmente vestida. 
 
De certo modo, este é o maior prazer da produção. Livre da pressão de fazer um grande manifesto artístico – ainda mais na esteira do excelente “Dor e Glória” – Almodóvar usa o curta como um veículo menos ambicioso no qual ele pode dar plena vazão aos seus gostos e idiossincrasias, sem se preocupar em como eles vão compor um grande canvas. 

ALMODÓVAR NO MODO TARANTINO

 
Nessa linha, o filme encontra o cineasta em seu modo mais fetichista. As cenas são cheias de seus elementos visuais mais icônicos, elevados à máxima potência. Paredes coloridas, looks de tirar o fôlego, mulheres histéricas, bebida, drogas: Almodóvar se deleita em tudo isso – quase como Tarantino faz com violência, palavrões e pés. 
 
Apesar de explorar um texto cujo ponto central é um romance, o sexo – outra marca do diretor – está notoriamente ausente do curta. Assim também estão as famosas reviravoltas do cineasta, ainda que isso seja talvez venha com o formato. Com apenas 30 minutos, há pouco tempo para que o roteiro plante sementes narrativas para um final surpresa. 
 
Mesmo sendo um Almodóvar menor, “A Voz Humana” é obrigatório para seus fãs do cineasta. Com uma atuação deliciosamente tresloucada, Swinton hipnotiza o público e carrega o filme nas costas com louvor. Se um dia os dois se juntarem para um longa, não sobrará internet para ser quebrada. 

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