Se há uma coisa que o triste ano de 2020 deixou absolutamente óbvio para o mundo é que, nos Estados Unidos, a polícia é inimiga da população negra. Sério, como alguém pode discordar disso ao ver algumas poucas estatísticas, e ao presenciar a comoção mundial que casos como os de George Floyd e Breonna Taylor provocaram, para ficar apenas nos mais famosos e recentes? Misha Green, a principal produtora e voz criativa do seriado Lovecraft Country e roteirista e diretora deste oitavo episódio da temporada, intitulado “Jig-a-Bobo”, tem plena consciência disso. No meio dos eventos sobrenaturais da série e de todas as maluquices, ela faz dos policiais da história os mais terríveis vilões neste segmento. Ela examina os efeitos da morte de um rapaz negro sobre os protagonistas e a cidade onde vivem. E, claro, nos oferece a catarse, que coroa mais um ótimo episódio.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×01

O jovem negro que morreu foi o “Bobo”, Emmett Till, que apareceu lá no terceiro episódio, na cena da sessão espírita com Diana (Jada Harris), filha de Hippolyta. Pois bem, isso foi referência a um crime de ódio real: em 1955 – ano em que se passa a série – Emmett Till foi realmente linchado enquanto viajava pela região do Mississippi, por presumivelmente assoviar para uma mulher branca. Ele tinha 14 anos. “Lovecraft Country” não mostrou a morte dele, mas lançou pequenas dicas em alguns episódios, plantando as sementes para esse momento com respeito e delicadeza.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×02

Claro, essa não deixa de ser uma opção narrativa ousada: não mostrar algo relativamente importante para a história é algo que com certeza pode desagradar a alguns telespectadores. Mas aqui a opção foi mesmo de fazer referência a um evento importante. Afinal, muita gente não lembrava, ou mesmo conhecia o massacre de Tulsa até esse terrível episódio da história dos Estados Unidos ser resgatado pela minissérie Watchmen ano passado…

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×03

Enfim, Diana é o foco de “Jig-a-Bobo”, e o roteiro faz a coitada passar por maus bocados, não apenas pela morte brutal de seu amigo, mas também pelo desaparecimento da mãe e pelas duas assombrações que começam a perseguí-la, depois que o chefe de polícia (Mac Brandt) a enfeitiça. A cena em que a pobre garota é acossada pelos dois policiais no beco escuro já seria assustadora mesmo sem os elementos sobrenaturais da trama. Esse é o verdadeiro pesadelo americano para a população negra. Montrose chega a afirmar que conhecer alguém que morreu nas mãos da polícia num crime racial é um “rito de passagem” para os jovens negros.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×04

O certo é que depois do encontro com os policiais, ela passa a ser assombrada por duas aparições gêmeas que saem da capa de um exemplar de “A Cabana do Pai Tomás”, livro de 1852 da autora Harriet Beecher Stowe que já foi saudado tanto como uma bela visão antiescravagista quanto como uma obra perpetuadora de estereótipos nocivos aos negros. Claro, Lovecraft Country sempre fez alusões certeiras a obras da literatura e o uso de mais este livro não é por acaso.

 PREPARAÇÃO DE TERRENO

Enquanto Diana experimenta a parte de terror do episódio, o resto é preparação de terreno para o final da temporada que se aproxima. As peças de tabuleiro se arrumam para o embate: Tic e Montrose se reaproximam, Ji-Ah chega para confrontar Tic e Letitia com sua visão do futuro, Ruby e Letitia fazem revelações uma para a outra, e a manipuladora Christina mexe seus pauzinhos junto a todos os personagens para alcançar seu objetivo. Essa preparação é feita de forma muito competente, explorando os conflitos entre os personagens, e os atores se mostram em ótima forma nessa exploração. Bem, como Game of Thrones nos ensinou, se você quer o Casamento Vermelho, precisa antes preparar o evento…

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×05

Misha Green estreia na direção da série com uma condução admirável, sustentando bem o trabalho dos atores, inserindo detalhes visuais que deixam mais interessantes cenas apenas com diálogo – a cena de Christina se aproximando de Letitia na igreja, com ela entrando aos poucos em foco, se destaca. A diretora também capricha no clima esquisito nas cenas com as aparições e também cria grandes sequências com efeitos visuais, como uma nova transformação de Ruby e a eletrizante cena final.

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×06

Aliás, nos minutos finais do episódio, as suas duas vertentes – o terror bizarro de um lado, e a preparação de terreno do outro – colidem de uma forma poderosa, quando Green nos oferece a catarse. Depois de tanto sofrimento e dor, é a vez do troco, de uma maneira sobrenatural e esquisita, como já se tornou de praxe na série. O fato é que, em 2020, é muito bom ver policiais racistas se ferrando horrivelmente… E assim Lovecraft Country nos emociona e nos fornece uma boa dose de entretenimento catártico, e quem disse que essa não é uma das funções da arte?

CRÍTICA: “Lovecraft Country” 1×07

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