Manaus volta a ganhar as telas dos cinemas brasileiros com a chegada de “A Febre”. Em cartaz desde o dia 12 de novembro, a produção, falada em tukano e português, traz a região metropolitana entre a imposição do modelo capitalista advindo da Zona Franca de Manaus e todo o crescimento descoordenado da cidade paralelo à floresta ao redor e a resistência da cultura indígena. Tudo isso a partir de Justino (Regis Mypuru), um vigilante do Distrito Industrial que é tomado por uma febre misteriosa, enquanto se prepara para ver a filha ir para Brasília cursar medicina.

No comando desta história está Maya Da-Rin. Filha das lendas do cinema brasileiro, Sandra Werneck e Silvio Da-Rin, ela estreia em longas de ficção com “A Febre” após dirigir dois excelentes documentários sobre o universo amazônico – “Margem” e “Terras”. Com mais de 30 prêmios acumulados, incluindo Melhor Ator no Festival de Locarno e a consagração com cinco candangos no Festival de Brasília 2019, “A Febre” busca expandir seu público ainda mais ao chegar aos cinemas nacionais, ainda que durante este complicado momento da pandemia da COVID-19.

Em meio à intensa divulgação de lançamento do filme, Maya Da-Rin concedeu um tempo para falar com o Cine Set sobre as impressões dela em relação às características de Manaus, o cinema amazonense e, quem sabe, a vaga brasileira para o Oscar 2021. 

Cine Set – “A Febre” foi gravado em Manaus e zona metropolitana. Como foi fazer o filme na cidade? Que possibilidades ela trouxe que não estavam no roteiro?

Maya Da-Rin – Manaus é uma cidade que sempre me intrigou por encarnar tanto na sua história quanto na sua paisagem o contraste entre diferentes projetos de sociedade. De um lado, temos as formas de organização social das sociedades ameríndias, originárias daquele território e, de outro, o projeto colonial ocidental e capitalista, que deu origem ao Polo Industrial e à organização urbana de Manaus, e que pouco dialoga com a floresta, com as suas formas de vida e com os seus saberes.

Desde o primeiro argumento, “A Febre” sempre se passou em Manaus, então o roteiro já foi escrito pensando na cidade. Eu geralmente começo um projeto por um lugar e procuro passar o máximo de tempo que posso ali, caminhando, conhecendo as pessoas e tentando entender de que forma eu me relaciono com a história daquele lugar. Isso me permite ter a liberdade para encontrar o filme que quero fazer antes de começar a rodar e muitas vezes eu tomo um tempo até sentir que posso ligar a câmera.

No caso de “A Febre”, o roteiro foi escrito durante as temporadas que eu e um dos meus co-roteiristas, Miguel Seabra Lopes, passamos em Manaus. Durante esses meses, frequentamos comunidades indígenas nos arredores da cidade, acompanhamos as jornadas dos trabalhadores do porto de cargas de Chibatão e das enfermeiras da UBS Sávio Belota, em Santa Etelvina. Ao longo dessa pesquisa, vivenciamos muitas situações que foram mais tarde incorporadas ao roteiro e também pudemos imaginar outras que não nos teriam ocorrido sem o convívio com as pessoas e a vivência dos lugares.

Cine Set – Historicamente, o exotismo dominou a imagem que se faz da Amazônia e das pessoas que vivem aqui, muito disso, construído pelo próprio cinema. Gostaria de saber como você observa “A Febre” dentro deste panorama de novos olhares sobre a região e seus povos, especialmente, os indígenas.

Maya Da-Rin – Sim, há uma propensão do cinema em exotizar as culturas indígenas e uma tendência em enxergá-las por um prisma romântico e positivista, como remanescentes daquilo que as culturas ocidentais foram no passado e não como as sociedades complexas e atuais que são. Tanto o cinema, quanto a literatura e as artes em geral, contribuíram para a construção dessa ideia de alteridade, que não apenas romantiza como também relega os povos originários à condição de “outros”, ou seja, selvagens, para que os brancos possam se sentir mais humanos e civilizados. Esses conceitos passaram a ser tão constitutivos da mentalidade ocidental que mais de meio século depois da invasão das Américas pelos europeus, o humanismo segue revestindo de bons valores todo o tipo de usurpação, exploração, preconceito e violência.

Mas acho que isso tem se transformado nos últimos anos. Hoje, temos uma produção muito forte de cineastas e artistas indígenas que vem desconstruindo estereótipos e propondo novas imagens e narrativas. Ao mesmo tempo, também temos filmes realizados por não indígenas que muitas vezes são projetos transculturais, em colaboração com indígenas, atentos às especificidades culturais e históricas dos povos e contextos retratados. Acredito que o trabalho de cineastas como Andrea Tonacci, Vincent Carelli, dentre outros; as oficinas promovidas pelo Vídeo nas Aldeias, espaços de exibição e discussão dessa produção como o Forumdoc.bh, e principalmente o trabalho de realizadores e pensadores indígenas, foram seminais para essa transformação que testemunhamos hoje.

Cine Set – Sobre o Regis Mypuru: como você decidiu pela escalação dele? De que forma as experiências trazidas por ele ajudaram na construção de um protagonista tão potente em cena?

Maya Da-Rin – A pesquisa de elenco foi um processo que durou mais de um ano e contou com a colaboração de uma equipe maravilhosa de Manaus. A Dheik Praia, Danielle Nazareno, Isabela Catão e Thaís Vasconcelos tocaram a pesquisa junto comigo e com a Amanda Gabriel. Visitamos as comunidades dos arredores de Manaus e São Gabriel da Cachoeira convidando quem tivesse vontade de participar do filme para uma conversa. Estive com mais de 500 pessoas antes de encontrar os atores do filme. O Regis me chamou atenção pela sua presença e também pela precisão dos seus movimentos.

Em seguida, eu e Regis passamos uma semana lendo e conversando sobre o roteiro. Durante essas leituras, entendemos o que fazia ou não sentido manter, reformulamos algumas cenas e diálogos. Nos ensaios, continuamos conversando e retrabalhando o roteiro com a participação dos demais atores indígenas. Na maior parte das vezes, as cenas eram construídas a partir de improvisações e a língua sempre foi um elemento central para nós. Como eu não falo tukano, íamos alternando entre as duas línguas, o português e o tukano.

Acredito que as línguas não são uma ferramenta através da qual comunicamos ideias, mas formam um sistema de pensamento e determinam também nossa linguagem corporal. Quando os atores improvisavam uma cena em tukano, ela sempre se transformava. Às vezes eram os diálogos, outras vezes os movimentos, os gestos ou até mesmo o sentido da cena. Conversávamos muito sobre a tradução de uma língua para outra, sobre o que era intraduzível, o que se perdia ou o que ganhava um novo sentido.

Durante esses encontros, também contávamos muitas histórias uns para os outros. Era uma maneira de nos conhecermos, de ativar a memória e a ideia de que estávamos ali para contar juntos uma história. O cinema é esse lugar, onde se contam histórias, e nas culturas dos povos ameríndios, de tradição oral, o conhecimento é transmitido através das histórias contadas de uma geração à outra. Acredito que para contar é fundamental saber ouvir e atuar é sobretudo saber escutar o outro. A história que Justino conta para o seu neto durante o jantar, por exemplo, foi uma das histórias que o Regis nos contou durante os ensaios.

Cine Set – A produção de “A Febre” contou com profissionais do audiovisual do Amazonas tanto na tela quanto nos bastidores. Como foi essa troca com eles e de que forma contribuíram no seu olhar sobre Manaus, a Amazônia? O que você acha do cinema produzido no Estado?

Maya Da-Rin – Para mim, o desejo de realizar um filme passa pelos encontros que se produzem no processo. Eu já tinha realizado dois documentários no Amazonas, mas foi a primeira vez que filmei em Manaus. Todo o desenvolvimento do projeto, desde o início, foi alimentado pelas trocas que tive durante as temporadas que passei na cidade. A equipe de filmagem é majoritariamente manauara e as contribuições que eles trouxeram foram fundamentais. Não só porque são pessoas que vivem e conhecem profundamente Manaus, mas, principalmente, porque são artistas muito sensíveis e talentosos. Além da pesquisa de elenco, que mencionei acima, todos os departamentos contaram com profissionais manauaras em suas equipes, em muitos casos, realizadores que também desenvolvem um trabalho pessoal e autoral e que vieram contribuir com o filme. Acredito que A Febre não teria sido possível sem eles.

Sobre o cinema amazonense, mesmo com toda a dificuldade que ainda existe no financiamento e na circulação dos filmes, vejo a produção no estado se tornando cada vez mais forte. Para citar apenas as realizadoras e realizadores que colaboraram com “A Febre”, temos os filmes e séries de Elen Linth, Dheik Praia, Keila Serruya, do Diego Bauer e da Artrupe, as peças do Ateliê 23 e o trabalho de atuação da Thaís Vasconcelos e da Isabela Catão (vimos agora “O Barco e o Rio” sendo tão premiado em Gramado, um filme que contou também com a fotografia da Valentina Ricardo); além de iniciativas como o Festival Olhar do Norte e o Matapi – Mercado Audiovisual do Norte, que vem fazendo um grande trabalho de circulação e reflexão sobre as produções do estado.

O Marcos Tupinambá, produtor de diversos projetos amazonenses, foi responsável pela nossa produção local, tendo acompanhado o projeto ao longo de todo o seu desenvolvimento e trazido contribuições inestimáveis para o filme; além também do nosso diretor de produção, Sidney Medina. Sem o trabalho deles, “A Febre” não existiria. 

Cine Set – Depois de passagens premiadas em Locarno, Brasília, Lisboa, Chicago, você sonha com a possibilidade de “A Febre” ser o representante brasileiro no Oscar? Caso seja escolhido, o que você acha que representaria uma produção sobre esta temática, falada em tukano ter essa honraria?

Maya Da-Rin – A partir do momento que realizamos um filme, ele passa a ter vida própria. Nunca sabemos como ele será recebido. O caminho que “A Febre” percorreu até aqui já nos trouxe muitas alegrias. O filme foi exibido até o momento em mais de 60 festivais internacionais e recebeu 30 prêmios. Apesar da pandemia, que paralisou o mercado de distribuição, “A Febre” entrará em cartaz no ano que vem em países como França, Inglaterra e China.

Sabemos todos da importância que essa indicação representa e de como ela tem uma forte dimensão política, vide os últimos anos. Até hoje, apenas dois filmes realizados por mulheres foram indicados para representar o Brasil no Oscar: “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral, e “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert. “A Febre” é um filme protagonizado por atores indígenas, falado em tukano e que toca diretamente nas feridas coloniais do país. É claro que uma indicação como essa traz visibilidade para essas questões e ajuda na nossa resistência.

Cine Set – Pergunta clássica de fim de entrevista: quais são seus próximos projetos? Você fez o documentário “Terras”, aqui na Tríplice Fronteira, e, agora, lança “A Febre”. A Amazônia será tema de novos filmes seus?

Maya Da-Rin – Estamos vivendo um momento de desmonte de cultura e das políticas públicas para o cinema. Acredito que vamos precisar nos reinventar se quisermos continuar filmando. Eu venho trabalhando em alguns projetos de curta-metragem que pretendo realizar com equipes muito reduzidas e com poucos recursos. Paralelamente, estou também escrevendo o argumento de um próximo longa de ficção, que provavelmente se passará no sul do Brasil, mas por enquanto não temos perspectiva de como alavancar recursos para filmá-lo.

Crédito da foto da capa: Felipe Mussel.
Entrevista realizada com o apoio de Diego Bauer.
Agradecimentos à equipe da Primeiro Plano, especialmente, Marcela Salgueiro.

Maya Da-Rin: ‘’A Febre’ não teria sido possível sem os artistas do Amazonas’

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