De “Salve Geral” a “A Vida Invisível”, Caio Pimenta analisa quais os melhores e os piores filmes selecionados pelo Brasil para disputar o Oscar de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa. 

11. PEQUENO SEGREDO 

'Pequeno Segredo': clichê, previsível e piegas, não é sequer um bom filme

A pior escolha brasileira nos últimos anos, sem dúvida, foi “Pequeno Segredo” em 2017.  

Sem qualquer repercussão em festivais internacionais, “Pequeno Segredo” surgiu do nada para conseguir a vaga. Se ainda fosse um bom e surpreendente filme, vá lá, mas, passa muito longe disso: trata-se de um drama dos mais piegas possíveis incapaz de fazer o público se emocionar o mínimo possível. 

O filme não tinha a menor condições de representar o Brasil e isso só aconteceu para evitar que “Aquarius”, filme marcado pelo protesto contra o impeachment de Dilma Rousseff, não ter a possibilidade de fazer o mesmo em Hollywood.  

Uma interferência política já é por si só absurda e inaceitável e vira um escândalo quando ainda é feita maneira porca. Se era para mandar um filme que não fosse “Aquarius”, que escolhessem o “Chatô” ou “Nise”. A gente ia passar menos vergonha. 

10. O GRANDE CIRCO MÍSTICO 

O Cacá Diegues é gênio, gigante do cinema brasileiro, sem dúvida nenhuma. Agora, não por isso que todo filme dele precisa concorrer ao Oscar. 

Em 2019, entretanto, o péssimo “O Grande Circo Místico” foi selecionado o nosso representante. Apesar de todas as boas intenções e de um lirismo em falta no país, a produção não se sustenta em pé, é extremamente confusa e cansativa. 

Para piorar, a gente tinha duas produções muito melhores: o drama “Benzinho” com trabalho excepcional da Karine Telles, e o terror “As Boas Maneiras”, um filme deliciosamente esquisito da Juliana Rojas e do Marco Dutra. Dificilmente, eles conseguiram ser indicados, mas, ganhariam uma atenção que ambos mereciam. 

9. SALVE GERAL 

A indicação de “Cidade de Deus” ao Oscar 2004 fez o Brasil acreditar que os filmes violentos era o que Hollywood esperava da gente. Daí, foram diversos longas com a temática da violência urbana escolhidos. O esgotamento total da fórmula veio com “Salve Geral”. 

Partindo de uma ótima ideia – o caos instalado pelo PCC em São Paulo no ano de 2005 – o filme do Sérgio Rezende é uma bagunça completa, incapaz de desenvolver todos os personagens da história nem dar o caráter de urgência da trama. “Jean Charles” com o Selton Mello, e “Budapeste”, baseado no livro de Chico Buarque, eram mais filmes e poderiam ter ficado com a vaga facilmente. 

8. LULA: O FILHO DO BRASIL 

“Lula – O Filho do Brasil” apostou na popularidade recorde do então presidente para emplacar no Oscar 2011. Ficou bem longe disso. 

A cinebiografia de Lula exagera nas tintas para mostrar a trajetória realmente impressionante de um garoto pobre do Nordeste brasileiro que chega à Presidência da República. É um filme convencional com carinha de propaganda. 

A escolha unânime da comissão gerou polêmica na época pelo fato do Lula ainda ser o presidente do Brasil, dando uma clara sensação de interferência política no processo. Só ficou feio mesmo porque naquele a lista de filmes concorrentes não era das mais fortes – para você ter uma ideia, “É Proibido Fumar”, da Anna Muylaert, era quem mais se aproximava. Ainda assim, podia ter sido evitado. 

7. “O PALHAÇO” 

Dirigido pelo Selton Mello, “O Palhaço” já sobe um pouquinho nível nesta lista. Não é uma obra-prima, mas, ainda assim, tem os seus méritos. 

Nesta homenagem ao mundo do circo, o Selton Mello vai beber na fonte do Buster Keaton ao trazer um palhaço infeliz em busca da risada perdida. Ainda conta com o mestre Paulo José em um grande trabalho e revela a Larissa Manoela. 

Por outro lado, “O Palhaço” ter conseguido a vaga mais pelo carinho em relação ao Selton Mello e ao bom desempenho no Brasil do que ter ido bem em festivais internacionais. E olhando com a visão de fora, talvez, outros projetos naquele tivessem mais potencial. 

Era o caso, por exemplo, de “Heleno”, um drama excelente com uma performance arrasadora do Rodrigo Santoro. Ou “Xingu”, projeto com uma temática cara à Hollywood – o meio ambiente e os povos indígenas – e com Fernando Meirelles de produtor.  

Se eu tivesse que escolher um deles, ficaria com “Heleno”. 

6. BINGO – O REI DAS MANHÃS 

Tá aí outro caso em que a empolgação de público e crítica no Brasil acabou levando à escolha do nosso representante em 2018. 

“Bingo – O Rei das Manhãs” apela para a nostalgia ao trazer os bastidores da televisão nos anos 1980 e a trajetória insana do intérprete do palhaço Bozo vivido com brilhantismo por Vladimir Brichta. A aposta da comissão responsável pela escolha residia no caráter pop do filme e ter Daniel Rezende, montador de “Cidade de Deus” indicado ao Oscar, como diretor. 

Porém, na minha visão, “Como Nossos Pais” era o filme mais antenado com a temática daquele ano no Oscar, no caso, o feminismo, além do que é um baita trabalho com uma atuação sensacional da Maria Ribeiro. O longa da Laís Bodanzky ainda teve uma passagem elogiado pelo Festival de Berlim. 

5. HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO 

Cinema gay: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

O escolhido brasileiro para o Oscar 2014 foi o drama LGBT “Hoje eu Quero Voltar Sozinho”, do Daniel Ribeiro. 

Sucesso de público e com um fã-clube fiel nas redes sociais, “Hoje eu Quero Voltar Sozinho” é um simpático drama sobre amadurecimento e descobertas bem conduzido, ainda que um tanto superestimado. Apesar das boas passagens pelos festivais de Berlim, Atenas e Guadalajara, era improvável que o filme chegasse ao Oscar. 

“Hoje eu Quero Voltar Sozinho” derrotou outros filmes de temáticas LGBT como “Tatuagem” e “Praia do Futuro”. Mas, quem realmente deveria ter sido o selecionado era “O Lobo Atrás da Porta”, suspense de alto nível estrelado pela Leandra Leal. 

4. TROPA DE ELITE 2 

Fenômeno de bilheteria, “Tropa de Elite 2” foi o escolhido brasileiro para a disputa por uma vaga no Oscar 2012. 

A sequência dirigida pelo José Padilha e estrelada pelo Wagner Moura amplia o escopo do primeiro filme ao mostrar como a corrupção se alastra por toda a sociedade brasileira, especialmente, a classe política abastecida pelo dinheiro sujo do crime e com o fortalecimento das milícias. 

“Tropa de Elite 2” era o escolhido óbvio daquele ano em uma lista que ainda contava com filme como “Bruna Surfistinha”, “Vips” e “Trabalhar Cansa”. Ao mesmo tempo, porém, era uma opção curioso visto que se tratava de uma continuação de um filme que foi preterido anos antes na disputa.   

3. A VIDA INVISÍVEL 

A medalha de bronze vai para “A Vida Invisível”, eleito o representante do Brasil em 2020. 

O drama do Karim Ainouz conseguiu o inédito prêmio da mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes para o cinema brasileiro. Tinha ainda o apoio do produtor Rodrigo Texeira e da Amazon Studios. Como se ainda não bastasse, “A Vida Invisível” é um filmaço, um drama emocionante sobre vidas anuladas por uma sociedade machista com atuações excelentes da dupla Carol Duarte e Júlia Stockler. 

Aí, fica a pergunta que muita gente faz até hoje: ‘mas, “Bacurau” não poderia ter sido indicado?’ Sim, o faroeste do Kleber Mendonça Filho e do Juliano Dornelles também é um outro grande filme do cinema brasileiro com passagem vitoriosa em Cannes e carinho do público. Sinceramente, é a tal escolha de Sofia, mas, aqui, qualquer opção seria ótima. 

2. O SOM AO REDOR 

Crítica: O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Eu sempre defendo que o Brasil precisa mandar aquele filme que considera o melhor em vez daquele tem mais chances. E foi justamente isso o que ocorreu em 2014. 

O selecionado do Brasil foi “O Som ao Redor”, primeiro longa da carreira de Kleber Mendonça Filho. A produção foi elogiada por onde passou e é um dos melhores filmes nacionais da década passada com uma análise social brilhante das problemáticas bases sociais brasileiras. 

“O Som ao Redor” teve como principais rivais os mais populares “Gonzaga” e “Faroeste Caboclo”, mas, ainda bem que a comissão responsável pela seleção fez a escolha perfeita. 

1. “QUE HORAS ELA VOLTA?”

Crítica: Que Horas Ela Volta?, com Regina Casé

A melhor escolha brasileira nos anos 2010 foi, sem dúvida, “Que Horas Ela Volta?”. 

Representante do Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de 2016, o grande filme das carreiras da Anna Muylaert e da Regina Casé consegue tocar em feridas brasileiras e em conquistas sociais fundamentais alcançadas pelas classes mais pobres do país com uma sensibilidade rara. “Que Horas Ela Volta?” teve ótimas passagens por festivais na Alemanha, Suécia, EUA, Canadá e Holanda, tornando-se o candidato natural do país naquele ano. 

Como eu também sempre digo, o Brasil não precisa do Oscar para se firmar o seu cinema. Temos uma história riquíssima com grandes filmes, diretores, atores, atrizes, roteiristas e profissionais das mais diversas áreas técnicas. Até lá, azar do Oscar em não nos premiar. 

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